Investimento estrangeiro no Brasil sugere pouco espaço para a taxa de câmbio cair

Contas externas são parte dos fundamentos positivos do Brasil, mas fatores fiscais, políticos, da inflação e da pandemia deixam os investidores ressabiados

  • Por Fernanda Consorte
  • 27/04/2021 16h04 - Atualizado em 28/04/2021 19h39
PixabayRitmo da vacinação contra a Covid-19 e avanço da pandemia prejudicam investimentos no Brasil

Muito se fala das contas fiscais brasileiras, eu mesma me canso de escrever que elas são o calcanhar de Aquiles do país. Verdade. O contraponto da economia tem se dado nas contas externas. Os números têm reforçado a solidez dos fundamentos externos da economia brasileira. Também verdade. Contudo, há pontos interessantes a ressaltar na dinâmica das contas externas. O déficit em conta corrente segue altamente financiado pelos investimentos estrangeiros, mas esse diferencial diminuiu um pouco. Lembrando que o déficit em conta corrente diminuiu muito na crise porque passamos a importar menos e viajar menos, assim, não necessariamente por algo que sugere pulsão da atividade econômica brasileira, mas isso não é novidade. E sim, esse déficit é financiável, mas a fonte de financiamento tem diminuído. Os investimentos estrangeiros no Brasil, que já foram cerca de 4% do PIB, hoje não alcançam 3%. 

Segundo o Banco Central, no bimestre (fevereiro e março) houve uma melhora importante nos investimentos diretos no país, voltando a patamares pré-pandemia, mas ainda assim não muda o quadro fraco desse indicador durante toda a crise da Covid-19: só para terem uma ideia, em 2019 a média mensal do IDP foi de US$ 5,7 bilhões, em 2020 isso caiu para 2,8 bilhões por mês. Além disso, olhando o resultado de março, que a despeito de ter sido forte em US$ 6,8bilhoes, mostrou uma saída enorme e atípica de US$ 11,3 bilhões.

Esse movimento reflete as incertezas da economia brasileira, em especial as relacionadas ao ritmo da vacinação e evolução da pandemia no país. Afinal, como falamos por aqui diversas vezes, o Brasil tem sido menos atraente a investidores internacionais do que era anos atrás. Além disso, no mesmo resultado, o Banco Central informou que o fluxo cambial total no país está positivo em US$ 576 milhões em abril até o dia 20. Esse valor é resultado de um fluxo comercial positivo (ou seja, a balança comercial) de US$ 1,388 bilhão e de um fluxo financeiro negativo de US$ 812 milhões no período. Esse último, que é refletido em taxa de câmbio, é fortemente influenciado pelos efeitos da pandemia do novo coronavírus sobre a decisão de investimentos dos estrangeiros.

De fato, neste ano, o fluxo financeiro acumula um valor positivo, o que significa mais entrada de capital do que saída, mas por causa de janeiro e de fevereiro, antes da piora da pandemia no Brasil. Desde então, não se entra capital (em termos líquidos) no país. Em poucas palavras, mesmo as contas externas sendo parte dos fundamentos positivos do Brasil, a evolução de investimentos diretos no Brasil sugere pouco espaço para a taxa de cambio cair. Os outros fundamentos (fiscais, políticos, inflação, pandemia) falam mais alto e deixam o investidor ressabiado em colocar recursos neste emergente que moramos. Ontem, a taxa de câmbio encerrou em R$ 5,45, valor menor do que o das semanas anteriores, mas vamos lá, é um patamar muito alto.

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.