Já é realidade a inflação acima da meta e a taxa de juros mais perto de 10% do que de 5%

Divulgada nesta terça-feira, 22, a ata da última reunião do Copom mostra a possibilidade de o Banco Central aumentar o ritmo de ajuste na Selic

  • Por Fernanda Consorte
  • 22/06/2021 13h48
@flyerwerk/PixabayHá uma possibilidade real de a taxa de juros voltar para um patamar mais próximos a dois dígitos

A inflação tem me incomodado desde o ano passado, quando se falava “somente” em inflação de alimentos. Acontece que, com a necessária expansão fiscal em 2020 e taxas de juros em patamares baixíssimos, somados à taxa de cambio que captou toda a versão ao risco de nosso país, a inflação no atacado explodiu. Sim, explodiu. O IGP-M, cujos 60% referem-se a preços praticados no atacado, alcançou 37% nos últimos 12 meses, encerrados em maio, versus minguados 7% em maio de 2020. Na mesma pegada, a inflação ao consumidor já tocou 8%, ou seja, o dobro da meta estipulada pelo Banco Central. Mas, claro, muitos ainda acreditavam ser apenas um choque temporário… 

O resultado foi uma ação do Banco Central, elevando a taxa Selic dos magros 2% a.a para, agora, 4,25% a.a — e surpreendendo o mercado em sugerir mais. Porém, apenas de ler o parágrafo acima, que honestamente já havia sido escrito repetidamente com outras palavras por mim e vários analistas meses atrás, acho curioso se surpreender com a possibilidade real de a taxa de juros voltar para um patamar mais próximos a dois dígitos. Hoje, o Banco Central divulgou a ata de sua última reunião do Copom. Houve uma mudança de tom importante, pois foi percebido a possibilidade de o BC aumentar o ritmo de ajuste na taxa de juros, ou seja, em vez de outro aumento de 0,75%, elevar 1%. Além disso, parece que o comitê acompanhará os tradicionais indicadores quantitativos (expectativas de inflação da pesquisa Focus e inflação implícita nos mercados) para sua decisão futura, mas também avaliações “qualitativas”, como a percepção de que as pressões inflacionárias estão se espalhando pela economia. Achei arrojado.

O documento de hoje está forçando um ajuste nas curvas de juros dos mercados, o que seria um fator de queda para a taxa de câmbio. Mas não. A resistência em algo acima R$ 5 permanece. Isso porque o fator mais decisivo ainda é o que deve acontecer na política monetária dos Estados Unidos. A alta dos juros dos Treasuries de dois e dez anos coloca pressão em todas as moedas emergentes. E taxa de cambio alta é, por sua vez, um fomento para inflação. Difícil o balanço da economia em tempos de crise e ajuste. Para mim, inflação acima da meta e taxa de juros mais perto de 10% do que 5% já são uma realidade. Inflação e taxa de juros, acima e avante. Aguardaremos cenas dos próximos capítulos.