Onde moram os riscos em um cenário de esperança na economia?

Embora os indicadores econômicos sejam favoráveis, Brasil lida com um panorama político conturbado, sofre com estatísticas elevadas da pandemia e não vê a vacinação avançar

  • Por Fernanda Consorte
  • 18/05/2021 09h00
José Carlos Daves/Futura Press/Estadão Conteúdo - 17/03/2021Brasil apresenta sinais de estabilização da pandemia, avanço de reformas e privatizações e, sobretudo, indicadores de crescimento mais favoráveis

Eu iniciei 2021 com angústias: o começo do ano foi marcado por preocupações nos Estados Unidos com inflação e, por consequência, trouxe ao mercado emergente a possibilidade de aumento de juros. Esse movimento “roubaria” todo o capital para o país mais seguro e com maior rendimento. Localmente, lidamos com uma piora acentuada da pandemia, recordes de mortes pela Covid-19 em meio a confusões políticas e fiscais. Não à toa, a taxa de câmbio chegou lá na casa dos R$ 3,60, afetando inflação, juros, confiança e crescimento econômico. Porém, nas últimas semanas, esse cenário passou a mostrar alguma reversão. O avanço da vacinação, dando alguma luz no final do túnel, tem promovido maior apetite a risco. O Fed, banco central americano, tem batido o pé no patamar atual da taxa de juros, afinal seu mandato é dual (tanto para inflação como para atividade), gerando importante recuo dos juros de dez anos nos EUA. 

E, por aqui, já há sinais de estabilização da pandemia, avanço dos programas de concessões e privatizações, retomada de algumas reformas e, sobretudo, indicadores de crescimento mais favoráveis. A atividade econômica tem surpreendido positivamente, mostrando resiliência em meio ao recrudescimento da pandemia. Exemplo disso foi o desempenho do índice amplo de atividade do Banco Central do Brasil (IBC-Br), que encerrou o primeiro trimestre com crescimento e deixou para o 2T21 um carregamento estatístico menos negativo que eu esperava. De fato, segundo a pesquisa Focus do BCB, o mercado já aumentou sua estimativa de crescimento econômico para 2021, para 3,45% ante 3,21%. Esse movimento, sem dúvida explica termos voltado para o patamar de R$ 5,20 da taxa de câmbio. E agora? Bom… É um alívio importante, trazendo surpresas positivas, ainda mais no âmbito “PIB”, no qual estamos tão fragilizados. Mas ainda é cedo para sermos otimistas. 

Há riscos importantes no cenário global. A inflação nos EUA segue piorando. Houve muito estímulo econômico por lá, e isso, somado ao sucesso da vacinação em massa, gera propensão a consumir, o que propicia espaço para aumento de preços. Assim, podemos ouvir falar em aumento de taxa de juros antes do que se espera. Além disso, temos o cenário adverso político no Brasil, com eleições presidenciais no radar e uma vacinação muito lenta. As estatísticas da pandemia brasileira permanecem em níveis desconfortavelmente elevados, fora que os atrasos na chegada de insumos importados para a produção de vacinas podem atrasar o cronograma do Plano Nacional de Imunização. Em poucas palavras: melhorou, sim, mas os riscos estão próximos e não são pequenos. 

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.