Para não dizer que não falei das flores: mercado de créditos renasce no Brasil

Virada ocorreu durante a pandemia, quando as empresas se viram diante de um quadro de forte incerteza, com oferta a juros mais atrativos; saldo da carteira de PJ cresce hoje a quase 11%

  • Por Fernanda Consorte
  • 14/12/2021 13h12 - Atualizado em 14/12/2021 15h43
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Os temas de mercado têm sido, constantemente, fiscal, política e inflação — e seu efeitos (negativos) nos preços. De fato, ao contrário do esperado há poucos meses, vamos ver a taxa de câmbio fechando 2021 – ano que deveria ter sido muito melhor que 2020 – em cerca de US$/R$ 5,60, ou seja, quase 8% acima do ano anterior. Assim, nesta edição, falarei de outro tema, que ainda nada bem por aqui. Sim, para não dizer que não falei das flores, o mercado de crédito ainda vai relativamente bem. Vamos dar uma olhada. A penetração ainda é relativamente baixa no Brasil. O crédito em relação ao PIB é de 54%, enquanto países da América Latina, como o Chile, ou a zona do euro têm uma razão quase 20 pontos percentuais maior. No pré-crise da Covid-19, ou seja, até final de 2019, o mercado sofria uma mudança importante com a diminuição de ímpeto de empréstimo do BNDES. O saldo para pessoas jurídicas diminuiu muito entre 2016 e 2019. A carteira PJ encolheu mais de 10%, enquanto, nesse mesmo período, o saldo de crédito para pessoas físicas aumentou em quase 40%. 

Os motivos que explicam essa deterioração do crédito para pessoas jurídicas são, como mencionado, a mudança de perfil do BNDES, que deixou de atuar de forma expansionista, como havia feito em governos passados. O fato é que, ao retirar a força motora do banco, somado à abertura maior do mercado de capitais, o crédito para empresas, que já era relativamente pequeno, diminuiu ainda mais. Esse movimento, contudo, mudou na pandemia, quando as empresas se viram diante de um quadro de forte incerteza, com oferta a juros mais atrativos. Hoje, o saldo da carteira de PJ cresce a quase 11%, com espaço tanto para crédito livre como crédito direcionado. Olhando mais a fundo a situação de quem é PJ atualmente: o crédito livre para pessoas jurídicas alcançou R$1,2 trilhão, crescendo 15% em doze meses, destacando-se duplicatas e recebíveis, capital de giro. Contudo, vale também mencionar a expansão do crédito ligado ao comercio exterior durante a pandemia, o que era de se esperar diante da volatilidade que temos observado da taxa de câmbio, assim como a mudança do cenário internacional. Ou seja, o fluxo de mercadoria sofreu consequências, dada a incertezas da crise, gerando a necessidade de tipos de crédito ligados a esse segmento. 

Interessante notar que essa expansão no meio de uma crise econômica na proporção que tivemos ano passado não ocasionou, até o momento, aumento consistente de inadimplência. No auge da crise, a inadimplência da pessoa física mostrou um sobressalto, mas que rapidamente foi corrigido. Possivelmente, esse salto se deu pela queda de confiança dos agentes, que, com temor do futuro, seguraram pagamentos. Movimento que não se observou nas pessoas jurídicas, em praticamente nenhum segmento, mesmo o de comercio exterior. Olhando para frente, embora estejamos em um ciclo de aumento de juros, entendemos que há demanda para crédito. Segundo a pesquisa do BCB sobre demanda e oferta, ainda há apetite por crédito. Além disso, a constante evolução do mercado bancário e seus concorrentes, assim como o nível da penetração no sistema, sugere que há bastante espaço para crescimento do mercado de crédito no país. Finalmente, reforço que o papel do crédito é crucial na evolução e sustentabilidade da recuperação econômica.

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.