Pesquisas de mercado de trabalho mostram dados diferentes: em quem acreditar?

Ao passo que o Caged mostra um crescimento contínuo da criação líquida de empregos formais em diversos setores, a Pnad tem mostrado aumento da taxa de desemprego

  • Por Fernanda Consorte
  • 03/08/2021 16h12 - Atualizado em 03/08/2021 18h10
Marcello Casal/Agência BrasilPesquisas do Caged e do IBGE divergem sobre dados a respeito do mercado de trabalho

Enquanto o mercado financeiro se assusta com as novas, mas velhas, discussões políticas e fiscais, deixando o Brasil na lanterna dos países emergentes em relação à decisão de investimentos, gostaria de apontar uma discussão sobre mercado de trabalho, afinal, a vida real segue aqui fora. Há duas grandes pesquisas sobre mercado de trabalho no Brasil, o Caged que conta o saldo de criação de empregos formais, calculado pelo Ministério do Trabalho, e a Pnad, do IBGE, que de forma amostral analisa trabalhadores formais e informais e é responsável pelo cômputo da taxa de desemprego oficial do Brasil. Salvo as diferenças metodológicas, é esperado que ambas as pesquisas mostrem leituras similares, ao menos a mesma tendência. Contudo, desde 2020, as duas pesquisas têm mostrado coisas diferentes. 

Ao passo que o Caged mostra crescimento contínuo da criação líquida de empregos formais em diversos setores, a Pnad tem mostrado aumento da taxa de desemprego, com algum desalento. Explico melhor: no período pré-pandemia, o ritmo de criação de vagas formais rodava em cerca de 500 mil, ou seja, por ano, cerca de meio milhão de pessoas eram empregadas no setor formal. Agora, pasmem, nos últimos 12 meses encerrados em junho de 2021 foram empregadas 2,9 mil pessoas no setor formal. Uma mega recuperação do saldo negativo que esse cômputo acumulava nos 12 meses encerrados em outubro de 2020 (-274 mil), refletindo a quebra de confiança da pandemia. Era de se esperar alguma melhora, é claro. Afinal a economia está se recuperando, e o acontecido entre março e junho de 2020 não podia ser considerado um padrão (na época, foram destruídos mais de 1,3 milhão de empregos no setor formal). Porém, o ritmo de recuperação me parece, à primeira vista, fora de compasso com o crescimento da economia. 

No sentido oposto, a Pnad mostra contínuo aumento da taxa de desemprego, o que era de se esperar, porque essa variável tem comumente uma característica de estar atrás do ciclo econômico, demora para piorar e demorar para melhorar. A taxa de desemprego saiu de 11% no pré-crise da Covid-19 para os atuais 14,6%. Além disso, há um número importante de desalentados, ou seja, pessoas que saíram da população economicamente ativa (por descrença na economia, doença, outras formas de renda, etc). Se considerarmos essa turma, a taxa de desemprego estaria acima de 20% agora. Falando de outra forma, hoje a quantidade de desempregados (15 milhões) no trimestre encerrado em maio seria ainda maior se a força de trabalho tivesse voltado ao padrão pré-pandemia. A força de trabalho no primeiro trimestre ainda mostra cerca de 7 milhões de pessoas a menos do que em igual período de 2019, no período pré-pandemia.

Assim, em que acreditar? Na verdade, é difícil desqualificar qualquer pesquisa devido às suas diferenças metodológicas. Há a teoria de que a crise gerada pela pandemia de Covid-19 gerou concentração de mercado em grandes empresas. Em razão disso, houve aumento desproporcional de empregos formais. Isso porque as empresas menores, em geral, costumam oferecer mais vagas informais. E neste sentido, a demanda por mão de obra qualificada, sobretudo em tecnologia, aumentou muito, gerando excesso de oferta de mão de obra não tão qualificada, demandada geralmente em setor de serviços em empresas pequenas – o que mais sofreu com a crise.  E neste sentido, pelo IBGE ser amostral, talvez demore um pouco mais para pegar esse movimento. Contudo, os dados do PIB não mostram mudança extrema nos pesos de setores ao ponto de gerar tamanha distorção. E ainda assim acho que os números de criação de empregos formais se distanciam um pouco da conjuntura do país. De qualquer forma, estamos diante de uma mudança no quadro de trabalho e mão de obra no país, seja por maior empreendedorismo, maior tecnologia e maior emprego alternativo – a crise gera oportunidades? – que acredito que nenhuma pesquisa foi capaz de captar.