A aposta desesperada na inexistente ‘terceira via’ presidencial  

Michel Temer e João Doria ainda acreditam que podem liderar uma frente alternativa a Bolsonaro e Lula, mas a melhora econômica e o Auxílio Brasil podem turbinar a reeleição do atual presidente

  • Por Jorge Serrão
  • 09/03/2022 13h15 - Atualizado em 09/03/2022 13h18
FABRÍCIO COSTA/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO - 25/01/2022 Varal de ambulante em Santos com bandeiras do Palmeiras, de Bolsonaro, do Brasil, do Corinthians e de Lula Ambulante vende bandeiras de Bolsonaro e de Lula, os dois principais candidatos das eleições deste ano

Por enquanto, a sucessão presidencial 2022 é marcada por uma polarização entre o atual presidente (candidato à reeleição) Jair Messias Bolsonaro e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (colocado no páreo porque foi “descondenado” por corrupção em um “golpe” do Supremo Tribunal Federal em três instâncias do Poder Judiciário que haviam condenado, confirmado e ratificado a punição ao petista, seguindo tudo prescrito no Estado de Direito). Por ter a máquina federal, Bolsonaro pode ser considerado o candidato com mais chance de vitória, embora as “pesquisas” proclamem que Lula é o “líder”, o “favorito”. Manifestações nas ruas —onde Lula não vai — consagram Bolsonaro. Até agora, não apareceu um candidato que mostrasse força real para ser a “terceira via” alternativa a Bolsonaro e Lula. A grande dúvida é: vai aparecer o “terceiro elemento” com chance de vencer?

Os opositores apostam que surgirá um nome alternativo. Muitos são otimistas em relação a essa hipótese. Alguns até esperam que o “milagre” aconteça até junho (no máximo julho) para definir se vão apostar no confronto contra o presidente ou se juntar a ele na base aliada. É o caso específico do ex-presidente Michel Temer. Como um dos comandantes do MDB, Temer articula com todo mundo. Pode apoiar João Doria, indicando Simone Tebet para vice na chapa com o tucano. Mas ninguém se surpreenda se o cacique emedebista mergulhar com tudo na continuidade de Bolsonaro. Afinal, ele tem interesse na eleição para o governo do Estado de São Paulo. Nos bastidores, Temer joga intensamente a favor da candidatura do ministro da Infraestrutura, Tarcísio de Freitas. Ainda é cedo para ter certeza se o carioca conseguirá o feito de se viabilizar como candidato ao Palácio dos Bandeirantes. Tarcísio é a aposta mais ousada de Bolsonaro.

Quem acredita piamente que pode ser a “terceira via”, embora apareça com um desempenho surpreendentemente pífio nas pesquisas eleitorais, é o atual governador de São Paulo. João Doria Júnior faz várias apostas. Primeira, que consegue se viabilizar como o nome capaz de ser alternativa à polarização Bolsonaro x Lula. Segunda, ele acredita que será brindado com o apoio de Michel Temer e terá a senadora Simone Tebet como vice. Terceira, o marketeiro Doria pretende se apresentar ao eleitorado no melhor estilo “paz e amor”, tentando demonstrar que é o político com o perfil exato para promover o que está chamando de “pacificação do Brasil”. O tucano teve de readaptar seu plano original, pois a intenção inicial era formar uma parceria com o ex-juiz Sergio Moro — cujo nome não decola e ainda enfrenta desgastes surpreendentes (como o recente episódio em que “Mamãe Falei” agrediu moralmente as ucranianas).

Outra incógnita da sucessão é um quase ex-tucano. Até agora, Geraldo Alckmin não fez qualquer declaração pública explícita de que pode ou aceita ser o candidato a vice em uma eventual chapa com Lula da Silva. Por enquanto, a especulação é midiática. Interessa a Lula. Mas é criticada, duramente, por muitas “tendências” dentro do (autofágico) PT. Essa dobradinha seria impensável até pouco tempo atrás. Mas o desespero para derrotar Bolsonaro produziu essa hipótese maluca e que pode ser viável na teoria, mas não na prática. O eleitorado habitual de Alckmin terá muita dificuldade em engolir uma aliança dele com Lula. Problema é que tem gente que acredita ser politicamente possível mistura entre cachaça do inferno e óleo santo da Opus Dei… Mas, no final das contas, ninguém se surpreenda se Alckmin se filiar ao PSB e não fechar com Lula, saindo candidato ao governo de São Paulo, em dobradinha com Márcio França. O jogo segue aberto. Tudo pode acontecer. Muita coisa dependerá se será selada ou não a “federação” partidária entre PT e PSB.

Igualzinho a Sergio Moro (em quem ficou colado o desgaste de “traidor” a Bolsonaro), Ciro Gomes também não consegue decolar. Pelas críticas duríssimas que fez ao PT e Lula, dificilmente consegue viabilizar alguma aliança confiável para unir a esquerda — que a vitória acachapante de Bolsonaro em 2018 ajudou a dividir. A situação esquerdista é tão esquisita que Ciro não decola e Lula corre risco de derreter. Ainda não dá para acreditar que a maioria do eleitorado votará em um candidato cujo nome virou sinônimo de corrupção. Foi “descondenado”, recuperou os direitos políticos, mas não comprovou sua plena inocência no imaginário da maioria da população. Se a coisa continuar no ritmo que vai — e a percepção de melhora econômica se consolidar, junto com o pagamento do Auxílio Brasil de R$ 400 reais —, ninguém se surpreenderá se Bolsonaro vencer no primeiro turno. Detalhe fundamental: desde que a reeleição foi adotada, nenhum presidente deixou de ser escolhido novamente: FHC, Lula e Dilma… A tendência só não valerá para Bolsonaro — que tem a máquina e o apoio fundamental do Centrão do Congresso Nacional? A conferir.

Dá para resolver?

O preço dos combustíveis está alto em função do conflito entre Rússia e Ucrânia? Tudo é gerado pelas sanções aplicadas contra o governo de Vladimir Putin? Ou a “culpa” é do cartel da Opep (Organização dos Países Produtores de Petróleo)? Todas essas desculpas são insuficientes para explicar o caso brasileiro. Os combustíveis sempre custaram caro aqui. A causa essencial é o modelo monopolista e cartelizado da exploração, refino, distribuição e comercialização dos derivados petrolíferos. Em resumo: as coisas não se resolvem com soluções corretas, sensatas e baseadas na racionalidade econômica porque nós, brasileiros, temos a mania de culpar a consequência, sem entender ou enxergar a causa real do problema.

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.