Bolsonaro x Moro: Quem é o ‘traidor’ na história?

Velha mídia esclerosada foca na narrativa do agravamento do problema econômico, prejudicando, sobretudo, os mais pobres; adversários do presidente apostam tudo no caos para impedir a reeleição.

  • Por Jorge Serrão
  • 01/12/2021 12h38
Gabriela Biló/Estadão Conteúdo - 18/12/2019 O ex-juiz Sergio Moro deixou o Ministério da Justiça em abril de 2020

O desespero dos adversários confirma que Jair Messias Bolsonaro é o candidato a ser batido na eleição 2022. O presidente tem o direito à reeleição — benesse concedida pelo equívoco histórico de Fernando Henrique Cardoso, que permitiu dois mandatos seguidos para ele próprio, Lula da Silva e Dilma Rousseff. Ano que vem, Bolsonaro tem tudo para ser o próximo beneficiado. Seus principais oponentes só miram nele. Lula, Sergio Moro e João Doria focam mais em atacar Bolsonaro e menos em apresentar propostas objetivas a favor do Brasil e que estabeleçam uma diferença concreta entre eles e o atual titular do Palácio do Planalto.

Sabendo que o sucesso econômico é fator decisivo a favor de Bolsonaro, os adversários (em conjunto) apostam no caos e fazem coro na crítica de que “Bolsonaro é uma liderança fraca e com ideias ruins, incapaz de tocar as reformas”. O presidente vai responder com realizações visíveis em infraestrutura. A família Bolsonaro colocou no ar um aplicativo que centraliza toda a divulgação positiva em diferentes produtos das redes sociais. A guerra entre narrativas e fatos será intensa. O primeiro round da sucessão presidencial levianamente antecipada começa com uma polêmica direta entre Sergio Moro e Jair Bolsonaro.

Aconselhado por estrategistas de marketing, o ex-juiz da Lava Jato tenta se livrar da imagem (aparentemente consolidada) que mais lhe incomoda e prejudica politicamente: a de “traidor”, pela maneira tensa como deixou o Ministério da Justiça do governo Bolsonaro, em 24 de abril de 2020. A pasta era um “Superministério”, juntando Justiça, Segurança Pública, Transparência e Controladoria-Geral da União e o Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras). Moro saiu batendo em Bolsonaro, depois que o presidente exonerou o chefe da Polícia Federal: “O presidente me falou que tinha preocupações com inquéritos no Supremo, e que a troca seria oportuna por esse motivo, o que gera uma grande preocupação”.

Moro lançou um livro (R$ 49,00) para turbinar a campanha. “Contra o Sistema da Corrupção” (editora Sextante, 288 páginas), com a foto dele tomando toda a capa, tem dois objetivos. O estratégico é reforçar a imagem de Moro como militante na matéria pelo trabalho na Lava Jato, tentando superar os desgastes que ele sofreu por ter sido considerado “suspeito” pelo Supremo Tribunal Federal — o que permitiu a “descondenação” de Lula da Silva. O tático é atacar Jair Bolsonaro, tentando evitar que o presidente se apodere da bandeira anticorrupção para a campanha 2022. Tanto que, na primeira entrevista sobre a obra, Moro tenta culpar Bolsonaro pelo que chama de “retrocesso no combate à corrupção”. O ex-juiz federal e ex-ministro ataca: “A responsabilidade maior, na minha opinião, é da liderança. Quem lidera o país? Nós estamos num regime presidencialista. Tem uma liderança no país, tem uma liderança executiva”.

A contraofensiva do presidente veio do filho Flávio Bolsonaro. Na cerimônia de filiação ao PL, o senador alfinetou Moro: “Tem um ditado na política que diz o seguinte: a política pode até perdoar a tração, mas não perdoa o traidor”. O ministro das Comunicações, Fábio Faria, não perdoou, com trocadilho: “Ataca a política, critica a política, se torna político e já começa a viver de partido político. Rápido, hein. Nem deMOROu”. Sérgio Moro, que evita ataques ou menções ao Supremo Tribunal Federal, deve se preparar para um intenso troco dado pelo bolsonarismo. Seguidores do presidente já exploram nas redes sociais o fato de o Podemos utilizar recursos do “fundo partidário” para pagar uma ajuda de custo (ops, salário) de R$ 22 mil mensais para Moro, a partir de dezembro. O ex-juiz deixou um superemprego no escritório transnacional de advocacia Alvarez & Marçal, que atua em casos, inclusive, no STF. Bolsonaro também vai explorar o apoio que Moro tem recebido de banqueiros — justamente os principais inimigos de Bolsonaro (e vice-versa). O presidente aguarda o momento crucial em que Moro terá de focar os ataques em Lula para se viabilizar (ou não) como “terceira via”. João Doria espera que Moro não decole, para tê-lo como vice… Lula tenta seduzir Geraldo Alckmin (rompido com Doria) para vice. Até tudo se definir, pura guerra de fatos e narrativa. No meio do caminho, a incógnita pandemia… Eis a sucessão pandemônica de 2022.

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.