Brasil vai para eleição livre, ruptura violenta, com a guerra de todos contra todos?

País encara grave crise institucional, enquanto se prepara para uma eleição polarizada que discutirá Segurança, Corrupção e ameaças à Liberdade. Tudo com o Presidente e o STF em conflito crescente

  • Por Jorge Serrão
  • 04/04/2022 13h52
Fernando Frazão/Agência Brasil urna eletrônica Eleições devem ocorrer em outubro deste ano

O Brasil tem 32 partidos políticos. Neste ano eleitoral de 2022, 17 estarão contra a reeleição do presidente Jair Messias Bolsonaro: PT, PCB, Cidadania, PCdoB, PCO, PDT, PMN, PPL, PSOL, PSB, PSTU, PV, Rede, PSDB, MDB, UP e União Brasil (DEM + PSL). Embora pareça, a batalha não é meramente político-ideológica. O confronto não é direita x esquerda. Também não é uma mera pancadaria maniqueísta do Bem versus Mal. A disputa real é de quem defende uma pátria honesta x quem deseja manter a cleptocracia (governo do crime). O risco é que as consequências da “Guerra de Todos contra Todos” podem ir muito além das legítimas e conflituosas disputas em uma eleição que se espera livre. Dependendo do resultado das urnas, deve-se levar a sério o perigo de o país sofrer uma ruptura institucional ou mergulhar em uma guerra civil que cause um rompimento (em função da explosão descontrolada de violência, inclusive a política).

Há aproximadamente dois anos, analisando as atitudes das autoridades brasileiras (Presidente da República, Supremo Tribunal Federal, Congresso Nacional, governadores e prefeitos), concluímos que a eleição presidencial de 2018 havia embaralhado o jogo de tal forma que, em breve, na busca insana para manter o poder, essas mesmas autoridades estariam dispostas a tudo. Batizamos este jogo de “Guerra de Todos contra Todos”. Há mais de dois anos que, periódica e repetidamente, publicamos artigos e falamos do momento em que a guerra institucional tomaria conta da vida pública brasileira. O momento chegou. O que assistimos nos últimos dias foi o deplorável jogo do poder pelo poder. Poder político que infelizmente permite a prática de atos corruptos, em escala bilionária, contra o sofrido povo brasileiro. Para quem acompanhou os últimos eventos políticos, ficará fácil perceber que a quase totalidade das autoridades brasileiras não está nem aí para o bem do povo brasileiro ou da nação brasileira. Querem poder para enriquecimentos ilícitos. Objetivo único é pilhar o Brasil.

O então poderoso governador do estado de São Paulo, João Doria, com seu orçamento fantástico, lançou-se alucinadamente em campanhas de autopromoção, usando a pandemia da Covid-19 como trampolim midiático e forçou uma prévia em seu partido (PSDB). Foi escolhido pré-candidato à Presidência para 2022. Doria, considerado um novato na política partidária, viajou por todos os Estados, costurando acordos com a velha oligarquia acuada pelo fim da corrupção sistêmica federal, junto com o fim da mamata que usava milhares de cargos federais usados para “roubar” recursos do povo brasileiro. Doria prometeu aos velhos oligarcas nos Estados – governadores, prefeitos, deputados e senadores – que talvez conseguisse o impeachment de Bolsonaro. Tudo com a ajuda do Presidente da Câmara Rodrigo Maia (que virou seu secretário e coordenador político) e com uma ajudinha do STF.

Ocorreu que, na hora de deixar o governo de SP para se candidatar à presidência, João Doria suspeitou que o comando nacional do PSDB talvez não respeitasse o resultado das prévias partidárias. Assim, ele simplesmente ficaria sem o mandato de governador e sem a candidatura a presidente. Por isso, produziu um blefe-factóide. Simplesmente mandou avisar que iria ficar no cargo de governador, concorrendo à reeleição. Por isso, seria forçado a descumprir todos os acordos e promessas feitas até então, principalmente com o grupo de seu vice-governador Rodrigo Garcia. No entanto, tudo isso foi quase fake. A cúpula do PSDB recuou no golpe que daria para favorecer Eduardo Leite – governador gaúcho que renunciara de olho na corrida ao Palácio do Planalto. O azar de Doria foi o efeito colateral imprevisto da jogada que parecia de mestre. Além de apavorar aliados e o próprio partido, ele desmoralizou a própria candidatura. Gerou desconfiança em todos os acordos, conchavos e arranjos com a velha oligarquia política brasileira. A manobra implodiu. Raposas velhas, que não entram em barcos furados, desembarcaram do apoio ao tucano. Em cada Estado brasileiro, os senhores da política regional se consideraram traídos pelo excesso de esperteza do novato João Doria que acabou forçado a renunciar ao governo.

Não bastasse o rombo no casco do barco da velha oligarquia produzido por Doria, o presidenciável Sergio Moro também se viu forçado a desistir de sua candidatura à Presidência pelo Podemos. Foi surpreendido por uma visita, na casa em Curitiba, dos três senadores paranaenses, junto com a presidente do partido. Alvaro Dias, Oriovisto Guimarães, Flávio Arns e Renata Abreu comunicaram que Moro deveria desistir da disputa. Foi por isso que Moro procurou Luciano Bivar, do União Brasil, para trabalhar pela formação do centro contra Bolsonaro e Lula. Assim, mudou de domicílio eleitoral para São Paulo e deixou no ar que seria candidato a deputado federal. O problema é que nada foi combinado com outros caciques do recém-criado partido. O baiano ACM Neto não aceitou a filiação de Sergio Moro e muito menos suas pretensões políticas. Moro pode ser desfiliado ou ser forçado a desistir, definitivamente, da aventura presidencial. Nem vice de outra candidatura (no caso, de João Doria), o ex-juiz poderá ser. Tudo isso ocorreu em menos de 48 horas. Ao mesmo tempo em que o apresentador de televisão José Luiz Datena desistiu do União Brasil, rumou para o PSC e avisou que apoiará o ex-ministro de Bolsonaro, Tarcísio de Freitas, para o governo de SP. Sinal de que apoiará Jair Bolsonaro – de quem era crítico até outro dia?

No 1º final de semana de abril, as velhas oligarquias regionais se mostraram desesperadas, apavoradas. Lula viajou por todos os Estados e não conseguiu apoio de lideranças expressivas. Só fez fotos e filmagens na casa de artistas na Bahia e Rio de Janeiro. Tenta permanecer na corrida presidencial se aliando a ex-presidiários como Geddel Vieira Lima (na Bahia) e velhos derrotados e inimigos políticos como Roberto Requião (no Paraná). Lula precisa que apareçam mais candidatos à Presidência para desgastar Jair Bolsonaro. Lula já avisou interlocutores que se o deixarem abandonado na corrida presidencial ele não será candidato. Não tem mais idade (talvez nem saúde) para isso. O PT e os partidos de esquerda não têm mais militância nem tem bandeiras sociais que possam ser utilizadas novamente para enganar os eleitores.

Há dois anos, as velhas oligarquias políticas, inconformadas de perderem seus acessos aos cofres do Tesouro Nacional pela vitória de Bolsonaro, decidiram antecipar a sucessão presidencial. A pandemia foi a desculpa perfeita. O Supremo Tribunal Federal deu plenos poderes a governadores e prefeitos para combaterem o coronavírus. O STF esvaziou o poder de Bolsonaro. Mas toda a fatura seria enviada para o presidente. A velha oligarquia ganhou bilhões para gastar, sem licitação. Governadores e prefeitos  criaram o caos socioeconômico, fechando cidades inteiras, com “lockdowns” que quebraram empresas e extinguiram centenas de milhares de empregos. Tudo abençoado pela velha imprensa que também teve sua parte na pilhagem. Afinal, dar cobertura 24 horas merecia o pagamento. A imprensa comprada atribuiu todos os males da crise da pandemia ao presidente Jair Bolsonaro, mesmo havendo decisões judiciais atribuindo a prefeitos e governadores a responsabilidade do combate à explosão da doença. Narrativa facilitada porque o presidente não usava máscara, não se vacinou e não distribuiu cargos aos sedentos corruptos que roubaram impunemente o Brasil nos últimos 25 anos. Esse presidente tinha de ser parado pelo sistema.

Agora, na hora decisiva, assistimos a um triste espetáculo. A velha oligarquia precisa de mandatos, cargos públicos para continuarem a assaltar os cofres públicos. Ao federalizar os rumos da nação brasileira, ao apostar todas fichas em Sergio Moro, Lula e João Doria, as oligarquias locais, nos Estados, estão agora sem rumo. Sem Moro, sem Doria e com Lula prestes a desistir, aqueles que federalizaram suas campanhas e só querem poder para roubar estão sem rumo. O grupo identificado com Bolsonaro foi o que mais cresceu na janela partidária de março de 2022. Bolsonaro e seu time estão unidos, convictos de seus projetos e deverão empolgar na hora que a campanha oficialmente começar. A temporada de acordos e traições está aberta. Bolsonaro já está sendo procurado por vários órfãos de Doria e Moro. Querem ter alguma chance de sobreviver aos resultados das urnas. Alguns membros da cúpula do Judiciário que se ofereceram para operacionalizar a pancadaria em Bolsonaro são os grandes derrotados do momento. A “Primavera Brasileira” – que está a caminho – tem tudo para dobrar a cleptocracia. A esperança de um futuro melhor é que todo poder emana do povo e em seu nome deve ser exercido.

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.