Desrespeito à vontade popular é um sinal de que o espectro autoritário ronda o Brasil

País enfrenta abusos de autoridade, medidas de controle social, radicalização política e negação parlamentar a um claro desejo do povo por eleições limpas

  • Por Jorge Serrão
  • 02/08/2021 16h15
Vilmar Bannach/Photopress/Estadão Conteúdo - 01/08/2021Apoiadores do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) participam de manifestação em favor do governo federal e do voto impresso

Diante das imagens reais nas ruas das capitais e grandes municípios, mostrando a expressiva quantidade de brasileiros que apoiam a transparência eleitoral com recontagem pública dos votos, será necessária muita cara de pau e ousadia canalha dos parlamentares para não aprovarem a PEC do Voto Impresso. Opositores de Jair Bolsonaro apostam que a proposta será enterrada nesta quinta-feira, 5, antes que possa chegar ao plenário. O presidente, que participou da manifestação em quatro cidades por videoconferência, voltou a repetir que “sem eleições limpas e democráticas não haverá eleições no ano que vem”. O tempo dirá se sim ou não…

Será elaborado um placar eletrônico virtual com os nomes dos parlamentares que votam a favor, contra ou estão indecisos sobre a questão do voto impresso. Mas, mesmo que a batalha seja perdida na Câmara dos Deputados, é forte a chance de que um outro projeto parecido, que tramita no Senado, seja tocado adiante. O foco agora é para que a urna eletrônica imprima os votos para que sejam recontados 100% — e não apenas de forma parcial, em um pedido de auditoria. De todo modo, ficou comprovado que a maioria esmagadora quer eleições transparentes e seguras, o que é um inegável avanço.

Jair Messias Bolsonaro pode colocar em sua conta pessoal a impressionante capacidade de mobilização popular, enquanto é atacado intensivamente pela oposição destrutiva e pela mídia carente de verbas públicas de publicidade. Os gigantescos atos populares de 1º de agosto também deixaram claro que não dá para acreditar em enquetes que apontam qualquer favoritismo de Luiz Inácio Lula da Silva — o presidenciável ressuscitado por um golpe do Poder Supremo em três instâncias do Judiciário que condenaram o poderoso chefão petista por corrupção.

A pressão popular crescente não vai sensibilizar os políticos? Ainda é cedo para essa afirmação. Até porque já está programada outra megamanifestação para o dia 7 de setembro, principalmente em Brasília, onde haverá até acampamento com trailers e barracas. As imagens das ruas revelam um Bolsonaro que, apesar das críticas e ataques políticos ou midiáticos, segue com popularidade elevada — embora as enquetes tentem afirmar o contrário. Nada de anormal em meio a uma guerra de narrativas que aponta para uma perigosa radicalização do processo político, com agravamento do conflito institucional de todos contra todos os poderes. O ideal seria que legisladores atacassem a vontade popular… O problema é que sobrevivemos em Bruzundanga…

Enquanto não se tem certeza sobre o destino da transparência eleitoral, parlamentares retornam do recesso. A Comissão Picareta de Inquisição do Covidão volta com promessas de cometer novos abusos de autoridade, na sanha previsível para tentar provar ação e omissão do governo Bolsonaro na pandemia. Pode-se até aprovar a convocação do ministro da Defesa, general Braga Netto, além de uma reconvocação do general Eduardo Pazuello, ex-ministro da Saúde. Mas o lance absurdo e surreal tem autoria dos nazifascistas egressos do PCdoB, Omar Aziz e Renan Calheiros, com participação de Humberto Costa. Eles pedem a quebra de sigilo fiscal e bancário de veículos de comunicação por eles considerados como “governistas” e “produtores de fake news”.

Um dos alvos preferenciais da CPI é o tradicional Grupo Jovem Pan, com 77 anos de atuação jornalística. Nesta toada, o SBT e a Record podem ser os próximos. O ataque à liberdade de imprensa, além de inconstitucional, é uma covarde tentativa de intimidação do trabalho da imprensa. Nada custa recordar que, na história, o fascismo e o nazismo começaram e evoluíram assim. Primeiro, cooptando ou garroteando a mídia. Depois, com outras medidas totalitárias que pautaram a ascensão de Benito Mussolini e Adolf Hitler, na Itália e na Alemanha. Todos conhecem a tragédia histórica.

O espectro autoritário do regime do crime institucionalizado ronda o Brasil. Felizmente, o país já rejeitou, em diversas ocasiões, os autoritarismos fascistas, nazistas e comunistas. Na pandemia, o gramscismo inspirou várias práticas hediondas de engenharia para controle social. O presidente Jair Bolsonaro tem o mérito de ter chamado a atenção de todos sobre os abusos de autoridade cometidos por prefeitos, governadores e muitos políticos no Congresso Nacional. Mas isso não é suficiente. O cidadão consciente precisa agir e reagir. Não pode aceitar os abusos sem protestar. E tem de votar de maneira melhor e consciente para escolher representantes compromissados com a liberdade, a lei, a ordem e os princípios democráticos.