O que acontece se Bolsonaro não quiser ou for impedido de ser candidato à reeleição?

Donos do poder farão de tudo para que o presidente seja desgastado, sofra impeachment ou fique impossibilitado judicialmente de concorrer

  • Por Jorge Serrão
  • 25/08/2021 14h16
Marcos Corrêa/PR - 01/01/2019Tarcísio Gomes de Freitas, ministro da Infraestrutura, pode ser o candidato da situação se Jair Bolsonaro não concorrer à reeleição

Bolsonaristas e oposicionistas, acalmai-vos! Vocês são convidados a fazer um exercício de ficção política. A provocação: e se Jair Messias Bolsonaro, que tem direito constitucional a disputar sua reeleição, não for candidato em 2022? Há duas possibilidades — científica e legalmente possíveis para isso. A) Bolsonaro pode desistir da disputa, por motivos pessoais, íntimos ou uma estratégia política surpreendente; B) O “Poder Supremo” — que neste caso não é o povo — pode lhe aplicar o golpe de torná-lo inelegível, por condenação em algum dos oito inquéritos (praticamente processos) abertos até agora contra ele. Tudo é possível no Brasil do regramento excessivo, com rigor seletivo ou perdão conveniente, conforme a vontade dos “donos do poder”.

O presidente Bolsonaro já avisou, diversas vezes, que ainda não decidiu se será candidato à reeleição. Muita gente, no próprio “bolsonarismo”, mas, sobretudo, da oposição, não acredita nisso. Aliás, para não ser acusado de fazer campanha antecipada, ele nem pode afirmar que tem esse objetivo reeleitoral. Por isso, ainda no campo fértil da especulação, vale perguntar: se Bolsonaro não quiser ou for impedido, por algum motivo, de ser candidato, quem poderia ser o substituto que ele apoiaria? O nome que surge mais forte, nessa hipótese, nas condições políticas atuais de pressão e temperatura, é o de Tarcísio de Freitas, ministro da Infraestrutura. A imagem dele se consolida como tocador de obras, principalmente das inacabadas pelos governos anteriores de Dilma e Temer. Tarcísio é apelidado, para o bem ou para o mal, de “Asfaltador-Geral da República” (kkk).

Tarcísio Gomes de Freitas tem uma identidade com Bolsonaro, além da amizade e confiança que um tem no outro. Ele também foi capitão do Exército Brasileiro. Pequena diferença que Bolsonaro saiu de forma conflituosa para ingressar no mundo da política. Tarcísio é engenheiro militar (formado pelo IME), onde obteve a maior média histórica do curso na instituição. Foi chefe da seção técnica da Companhia de Engenharia do Brasil na missão das Nações Unidas para a estabilização do Haiti. Deixou as Forças Armadas para ingressar, por concurso, na Consultoria Legislativa da Câmara dos Deputados. Tem experiência no mundo legislativo e na burocracia, pois foi coordenador-geral da auditoria na área de transportes da Controladoria Geral da União (CGU).

Em 2011, na gestão Dilma Rousseff, Tarcísio foi indicado pelo general Jorge Fraxe para “fazer uma faxina” como diretor-executivo do Dinit (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes). Em 2014, ascendeu à direção-geral do órgão. Em 2015, tornou-se, como secretário da Coordenação de Projetos da Secretaria Especial do Programa de Parceria de Investimentos (PPI), responsável pelo programa de privatizações, concessões e desestatizações. Missão quase impossível em um governo (estatizante) do PT. Por ter domínio da máquina, conhecer como funciona o “mecanismo” por dentro e ser um negociador com fama de conciliador, Tarcísio sobrevive em um meio e um cargo explosivamente suscetível à sedução da corrupção. Até hoje, nunca foi acusado ou denunciado por qualquer deslize moral, ético ou funcional.

Na hipótese de Bolsonaro não ser candidato à reeleição, Tarcísio de Freitas se transforma em um nome forte, alternativo, para a disputa ao Palácio do Planalto. O vice-presidente Antônio Hamilton Mourão seria um sucessor natural de Bolsonaro. Acontece que ambos romperam pessoal e politicamente. Por lealdade, Mourão já repetiu, diversas vezes, que apoiará o presidente até o último dia de governo. O general já avisou, também, que jamais “bateria chapa eleitoral contra Jair Bolsonaro”. Tudo indica que, se realmente optar pela continuidade na vida política, Mourão se candidatará ao Senado, provavelmente pelo Rio Grande do Sul. Se Bolsonaro disputar a reeleição, Capitão Tarcísio é cotado para ser o próximo vice de Bolsonaro ou, até, para uma nada fácil disputa do governo de São Paulo. O problema é que não parece uma opção tentadora para enfrentar a dupla Geraldo Alckmin e Márcio França — quase certos candidatos ao Palácio dos Bandeirantes pelo PSD, presidido por Gilberto Kassab.

Ainda no campo da ficção política: Se Tarcísio for candidato a presidente, quem pode ser seu vice? Um nome fortíssimo nos bastidores é do empresário Carlos Massa, mais conhecido como o apresentador Ratinho, do SBT. Ele também estaria cotado para ser anunciado como o “vice-surpresa” numa (eventual ou muito provável, quase certa) chapa encabeçada por Jair Bolsonaro. Outro nome ilustre seria o do tricampeão mundial de Fórmula 1 Nelson Piquet. Mas, em vez de vice, ele deve disputar uma vaga ao Senado pelo Distrito Federal, se Bia Kicis vier à reeleição como deputada federal ou candidata ao governo distrital. O jogo está abertíssimo. Nada decidido. Tudo é possível.

Lamentável é termos de suportar, como cidadãos, a maldita reeleição criada por Fernando Henrique Cardoso. O ideal é a rotatividade de poder, principalmente no Palácio do Planalto, em um regime presidencialista. Fato concreto e objetivo é que a eleição (ou reeleição) de 2022 dependerá muito do desempenho real da economia e a percepção de melhora das condições, principalmente pelas classes média e baixa. Covidão e período climático de seca, com taxas maiores de inflação, aumento do custo de vida e desemprego ainda prejudicam a imagem do governo Bolsonaro. Se a coisa efetivamente melhorar, e for sentida pela maioria da população, o atual presidente ou quem ele apoiar são favoritos para a vitória. O resto é conversa fiada…