Grito popular de Bolsonaro não intimida aqueles a quem chamou de ‘surdos da capa preta’

Eleição sem contagem pública do voto é uma caixa preta; mais grave que a insegurança e o risco de fraude — que sequer pode ser provada — é a possibilidade de compra de votos nas periferias

  • Por Jorge Serrão
  • 25/07/2022 17h28 - Atualizado em 25/07/2022 17h42
Fausto Maia/The News 2/Estadão Conteúdo - 24/07/2022 Jair Bollsonaro, com o microfone na mão, fala para multidão no Maracanãzinho Bolsonaro se referiu a ministros do STF e do TSE como "surdos de capa preta" durante convenção que sacramentou sua candidatura à Presidência

Santo Óbvio ululante, baixe por aqui! Eleição se decide no voto, com apuração honesta, transparente. O sistema eleitoral brasileiro é “inauditável” na prática. Se houver fraude, é missão quase impossível comprovar. Bit não é voto físico. Sem contagem pública do voto, o sufrágio universal fica comprometido e pode ser corrompido. Vamos a mais um pleito sob esquema de Trâmite Sigiloso Eleitoral. O Tribunal Superior Eleitoral trata a questão como um dogma inquestionável. O paradoxo é angustiante: políticos, que serão escolhidos pelo povo, foram burros, canalhas ou omissos por não aprovarem, no Legislativo, o aprimoramento da segurança eleitoral. Resultado objetivo: “Quem reclama já perdeu…”. Vencedores poderão rir, e o resto vai chorar. Eleitos serão diplomados dia 19 de novembro.

Outras obviedades: A eleição será dia 2 de outubro. Eventual segundo turno dia 30. Oficialmente, a campanha não começou? Engana-me que eu não gosto… Na realidade, tudo foi antecipado. Até 5 de agosto, partidos podem fazer convenções para escolher quem vai ser candidato. Legendas, federações e coligações têm até 15 de agosto para solicitar o registro de candidatura dos escolhidos. Até lá, muita traição e surpresa. Mas a burocracia não termina. Todos os pedidos de registro aos cargos de presidente e vice-presidente devem ser julgados pelo TSE até 12 de setembro. A realização de comícios, distribuição de material gráfico, caminhadas ou propagandas na internet serão permitidas a partir do dia 16 de agosto. Assim, até a “dedada” derradeira na urna eletrônica, tudo pode acontecer…

Mais obviedades? Pois, sim… Candidato à reeleição, Jair Bolsonaro é o cara a ser batido. Alguns preferiam que fosse abatido… A “oposição” tem ódio a Bolsonaro. Praticamente, seus inimigos apostam tudo em uma candidatura única: Luiz Inácio Lula da Silva. Aquele que aparece como “líder nas pesquisas de opinião”. Aquele que foi colocado no processo eleitoral por uma manobra jurídica. Foi “descondenado” pelo Supremo Tribunal Federal. Todas as condenações foram perdoadas. Todas as provas foram anuladas. Tudo sob alegação de que o juiz Sergio Moro, em Curitiba, foi “parcial”. A Lava Jato, o Petrolão e outros comprovados fatos criminosos “compensaram”. Assim, vai sobrar muita grana “roubada” para a mais perigosa fraude eleitoral: a compra de votos — dificílima de ser flagrada e comprovada em condições eleitorais “normais”.

Mais uma obviedade: o jogo é Bolsonaro x Lula. O presidente comprova sua força popular nas ruas, mas as pesquisas apregoam sua “impopularidade” e “reprovação” ao governo. O ex-presidente lidera os levantamentos (muitos custeados por bancos) e não consegue juntar massa eleitoral em eventos abertos. A mídia tradicional espanca Bolsonaro, sem perdão! Nas redes sociais da internet, Bolsonaro domina, mas Lula reage. Bolsonaro briga contra o Establishment — que também não gostaria de Lula, só que ficou sem alternativa. Faltou competência estratégica para chocar o ovo da serpente da terceira via. Bolsonaro conseguiu resistir e sobreviver. Aposta que o “datapovo” vai desmentir as pesquisas…

Ainda no grito do óbvio… Bolsonaro aposta todas as fichas no “desgaste supremo” do Judiciário para mobilizar o eleitorado em torno da aliança sólida entre a maioria do Executivo e do Legislativo. Tanto que o candidato-presidente foi enigmático na convenção do Partido Liberal, no Maracanazinho: “Nós não vamos sair do Brasil. Nós somos a maioria, nós somos do bem, temos disposição para lutar pela nossa liberdade e nossa pátria. Convoco todos vocês para que todo mundo, no 7 de setembro, vá às ruas pela última vez. Vamos às ruas pela última vez. Estes poucos surdos de capa preta têm que entender o que é a voz do povo. Têm que entender que quem faz as leis é o poder Executivo e Legislativo. Todos têm que jogar dentro das quatro linhas da Constituição, interessa para todos nós”.

Resumindo: o recado de Bolsonaro foi direto para o sistema STF-TSE que comandará a gestão da eleição. A grande pergunta é: o que Bolsonaro pode realmente fazer, além dos discursos, contra o que chamou de “surdos da capa preta”? Enquanto você pensa e tenta responder, a barbárie política continua solta! O tal “déficit de civilidade” (invocado pelo ministro Luís Roberto Barroso) só aumenta. A “oposição” causa mais estrago que Bolsonaro. Parece que o negócio é competir para ver quem consegue baixar mais o nível. Foi patética a imagem da cantora (parente de notórios esquerdistas) pisando na bandeira nacional… Tudo calculadamente filmado, para viralizar… Depois, um esfarrapado pedido de desculpas na própria internet. A Pátria da Impunidade aceita tudo… Desde que você não seja considerado “inimigo do sistema”.

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.