Uma análise das forças, fraquezas, oportunidades e ameaças de Bolsonaro, Lula, Moro, Ciro e Doria

Maior dúvida da sucessão 2022 é se uma ‘terceira via’ vai vingar ou se vai se repetir o fenômeno de 2018, o clima antipetista e anticorrupção que colaborou para a surpreendente escolha de Jair Bolsonaro

  • Por Jorge Serrão
  • 03/11/2021 14h51
ETTORE CHIEREGUINI/AGIF - AGÊNCIA DE FOTOGRAFIA/ESTADÃO CONTEÚDO - 15/11/2020As eleições de 2022 vão ocorrer no mês de outubro

Já está em andamento, precocemente, aquela que deve ser a mais truculenta campanha presidencial da história do Brasil. A partir de janeiro, pela resolução 23.600 do Tribunal Superior Eleitoral, todas as enquetes (ops, pesquisas) terão de ser registradas no “Sistema de Registro de Pesquisas Eleitorais” (que ganhou a sigla burocrática PesqEle). Os “institutos” ficam obrigados a entregar seus cadernos de pesquisa, além de toda a documentação que comprova os percentuais apresentados. Em princípio, fica um pouquinho mais complicado manipular (ops, fabricar) os resultados. Mesmo assim, a divulgação midiática dos números tem a capacidade de influenciar o eleitorado, apontando “favoritos” a vencedores.

Por enquanto, o “mercado” político aponta para uma polarização na disputa de 2022 entre o atual Presidente da República, Jair Bolsonaro, e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (providencialmente “descondenado” pelo golpe do Supremo Tribunal Federal em três instâncias soberanas do Judiciário Federal). Ainda se acredita que uma “terceira via” (um outro candidato) possa se viabilizar para a disputa. Cogitam-se os nomes de João Doria (que deve ganhar de Eduardo Leite nas prévias do PSDB), Ciro Gomes (do PDT, que disputa a faixa da esquerda com o PT) e, “a novidade”, Sergio Moro (ex-juiz que prendeu Lula e saiu fora do Ministério da Justiça de Bolsonaro, com a pecha de “traidor” proclamada pelos bolsonaristas. Outros nomes tendem a ser insignificantes. E ainda persiste a dúvida se o próprio Bolsonaro não volta a ser a “terceira via”, a exemplo do que ocorreu em 2018. Por isso, vale uma análise “Swot” (Forças, Fraquezas, Oportunidades e Ameaças) de cada competidor.

Bolsonaro tem como ponto forte uma impressionante popularidade, apesar dos persistentes e sistemáticos ataques midiáticos, da oposição e de seus inimigos do establishment. Outra força do Presidente é a chance de retomada da economia, graças a investimentos inéditos em infraestrutura e pelas medidas estruturantes tomadas pela equipe de Paulo Guedes. Bolsonaro é permanentemente ameaçado pelo estamento burocrático, sobretudo pelo chamado “Poder Supremo”. Sua fraqueza é a inconfiável fidelidade da base política e a característica de “lobo solitário” que contribui para um desgaste pessoal e impressão de isolamento de Bolsonaro. Também pesa contra ele o desgaste natural de todo governo (que não é medido, honesta e confiavelmente, pelas enquetes de opinião). Para a reeleição, além de contar com o “milagre econômico” (em andamento), Bolsonaro precisa formar uma coligação mais consistente. Por incrível que pareça, a maior ameaça de Bolsonaro vem dele mesmo: seu discurso verdadeiro, que às vezes (para alguns, quase sempre) beira o “sincericídio”, pois alimenta a narrativa dos adversários.

A candidatura de Lula tem força meramente retórica. Na realidade, enfrenta muitos problemas. O principal nome do PT sobrevive daquela lenda de que o partido detém uma fatia cativa próxima de 30% do eleitorado (será mesmo verdade?). A maior fragilidade de Lula é que seu nome se transformou em sinônimo de corrupção política. O forçado perdão supremo não resolve o problema do poderoso chefão flagrado na Lava Jato. Os escândalos do Mensalão e do Petrolão parecem parte integrante do corpo e alma de Lula. Ampla parcela do eleitorado segue com a vontade de rejeitar quem tenha ligação direta com a corrupção. Por isso, Lula posando de inocente é obra de ficção. Ele nem se arrisca a sair às ruas para não passar a vergonha das vaias. Para complicar ainda mais, o PT não apresenta propostas concretas para melhorar o Brasil. Mostra ser eficiente apenas na truculência do modo destrutivo de fazer oposição. Lula só é um nome viável na concepção irreal de quem raciocina com o intestino, em vez do cérebro. Lula é o político que desmoralizou a honradez. É uma ameaça à democracia.

Sergio Moro vem aí? Dia 10 de novembro, às 9 da manhã, no Centro de Convenções Ulysses Guimarães, em Brasília, o ex-juiz federal e ex-ministro da Justiça se filia ao Podemos. A máquina de propaganda apresenta Moro como presidenciável, tendo o senador Álvaro Dias como vice. Moro parece um nome forte, porque já foi considerado “super herói”, graças à atuação na Lava Jato. Só que a defesa de Lula e os votos supremos jogaram kriptonita no personagem. A maneira atabalhoada como deixou o governo Bolsonaro também contribui para que Moro seja comparado a um ‘Jedi’ que se bandeou para o lado obscuro da força. Não chega a ser um Darth Vader, mas tornou-se um ex-herói, um personagem que perdeu o encanto. Joga contra Moro o fato de não demonstrar vocação para a política. Tem a imagem consolidada de um burocrata do Judiciário (duramente criticado dentro do próprio sistema). Seu nome no páreo beneficia o candidato petista, na polarização com um inimigo público. Também complica para Moro o fato de deixar um contrato muito bem remunerado em uma banca de advocacia transnacional para se aventurar na política (uma atividade que não deveria ser um “emprego” e nem um meio lícito de enriquecimento). Moro não ameaça Bolsonaro, nem Lula.

Outros nomes que disputam a faixa da “terceira via” dependem da viabilidade ou não de Moro como presidenciável. Se conseguir vencer a disputa interna tucana com o gaúcho Eduardo Leite, João Doria Júnior é um nome certo na disputa. Conta com a força da marketagem (ops, marketing) e da máquina do governo de São Paulo. Mantém excelente relação com os grandes veículos de comunicação do país. Sua maior fraqueza é a atuação na pandemia, pois acabou vítima do desgaste que tentou impor a Jair Bolsonaro, durante a pandemia. Doria é outro classificado como “traidor” do presidente. Ninguém se esquece do “Bolsodória” da campanha de 2018. A imagem de “calça apertada” também o prejudica. Além disso, o PSDB é um partido em decadência, porque o eleitorado tem dificuldade de entender qual tendência ele realmente representa: É centro? É esquerda? A social democracia “brasileira” (?) nada significa de concreto na visão do eleitor.

Palpite possível? Se Doria emplacar, e o nome de Moro não decolar, o ex-magistrado pode acabar convidado para ser vice dos tucanos. Essa chapa Doria/Moro é o sonho dourado do governador paulista. Se não vingar um “acordão”, podemos ter Sergio Moro candidato ao Senado pelo Paraná. Quem não gosta da ideia é o mentor da candidatura presidencial de Moro, o futuro ex-senador Álvaro Dias. No mais, não dá para acreditar no potencial eleitoral de Ciro Gomes e, menos ainda, do senador Rodrigo Pacheco – uma invenção do hábil articulador político Gilberto Kassab, timoneiro do PSD. Da mesma forma, a fusão do DEM com o PSL, parindo o União Brasil, não conseguirá inventar um candidato viável. No mais, é aguardar as novidades e observar as mesmices.

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.