Brasileiros pobres precisam deixar de acreditar em escola pública

Ensino gratuito é o principal inimigo dos pobres do nosso país por tornar ainda mais desigual o mercado regido pela meritocracia e acorrentar à miséria

  • Por Leandro Narloch
  • 25/02/2021 12h12 - Atualizado em 25/02/2021 12h13
WERTHER SANTANA/ESTADÃO CONTEÚDO crianças sentadas em carteiras com distanciamento em uma escola. uma professora está no meio, com um quadro verde atrás. Pelo menos 530 escolas municipais paulistanas ainda não voltaram às aulas

Considere estas três informações. 1. Dos alunos de escolas públicas de São Paulo, 95% terminam o ensino médio sem saber o suficiente de matemática, de acordo com a última avaliação nacional do ensino básico, e metade se forma sem saber uma simples regra de três. 2. Pelo menos 530 escolas municipais paulistanas ainda não voltaram às aulas. Por falta de funcionários de limpeza, o retorno deve acontecer somente em março. 3. Professores estaduais faltam em média trinta dias por ano: todos os dias, seis mil deles não aparecem no trabalho.

Esses dados falam do Estado com melhor índice educacional do país: nem vamos imaginar o que ocorre nas regiões da metade para baixo dos rankings do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). E são anteriores à pandemia, sem considerar que agora todas as faltas dos professores estão previamente justificadas. É desanimador, mas é razoável concluir o seguinte: se tudo der certo, levará décadas para a educação estatal deixar de ser uma vergonha no Brasil. Por enquanto, a escola pública é a principal inimiga dos pobres brasileiros. Torna ainda mais desigual o mercado regido pela meritocracia; acorrenta os pobres (e as etnias discriminadas) à miséria. Se o seu filho estuda numa dessas escolas, é grande a possibilidade de se formar no Ensino Médio sem saber uma regra de três e com erros crassos de ortografia. É grande a possibilidade de trabalhar a vida toda como serviçal de quem estudou em escola privada. Essa constatação é triste, mas a mais razoável a se fazer.

Sendo assim, o que os pais deveriam fazer? Não vale fingir que o problema não existe ou que a solução é fácil. Os sindicatos de professores, com influência entre parlamentares, juízes e jornalistas, conseguem barrar inovações urgentes na educação. Para o bem dos seus filhos, é preciso parar de se iludir, e engolir uma verdade desagradável: relegar ao Estado algo tão importante quanto a educação não vai dar certo. “Então o que os pais devem fazer, se não têm dinheiro para escolas privadas?” A resposta é difícil, mas não é por isso que devemos manter a ilusão na escola pública.

Uma saída é lembrar do velho lema “do meu filho cuido eu”, e partir para o homeschooling depois da aula convencional, procurar bolsas em escolas privadas ou instituições filantrópicas, montar sistemas comunitários. No século 19, antes da criação da rede de educação pública, quase 80% dos ingleses já eram alfabetizados – isso mostra que havia educação muito antes da educação pública. E o livro “A Árvore Bela”, que acaba de ser publicado no Brasil pela Bunker Editorial, mostra casos impressionantes de escolas privadas para pobres de favelas da Índia e em povoados da África. Na maioria delas, os professores ganham menos que nas escolas públicas, mas os índices escolares são muito melhores. Soluções existem: o primeiro passo para encontrá-las é deixar de acreditar em escola pública.

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.