Jovens chilenos dão show de fascismo ao destruir igrejas

Só a intolerância explica a violência dos protestos no Chile deste domingo, que marcaram um ano das enormes manifestações por ‘justiça social’

  • Por Leandro Narloch
  • 20/10/2020 07h00
REUTERS/Ivan AlvaradoTorre de igreja é queimada durante protestos no domingo, 18, em Santiago, no Chile

Diante da igreja em chamas, um manifestante empunha uma bandeira do Chile com a frase: “Pelo direito de viver em paz”. Mais contraditório impossível. Quando a torre tomada pelo fogo desaba, o grupo de fascistas mirins vai ao delírio. Aplaudem, saltam, erguem os braços como se comemorando uma vitória. Mas o que eles ganharam além de um atestado de intolerância e estupidez? O termo fascismo está banalizado hoje em dia – muita gente o utiliza como sinônimo de “quem não concorda comigo” ou “feio e bobo”. Por isso, é bom defini-lo com precisão. Fascismo é intolerância, é a tentativa de impor um modo de vida e uma visão de mundo ao resto da sociedade. É a ideia de que o diferente não tem direito de existir e deve ser erradicado.

Só a intolerância explica a violência entre os protestos do Chile deste domingo, que marcaram um ano das enormes manifestações por “justiça social”. Manifestantes saquearam pequenos comércios e lojas de departamento; incendiaram as igrejas de São Francisco de Borja e a da Assunção (esta construída em 1876) que tiveram a torre principal derrubada por causa do fogo. A cena lembra a das sinagogas incendiadas em 1938 por jovens nazistas durante a Noite dos Cristais Quebrados. Muita gente chamou os incendiários chilenos de “terroristas de esquerda”, mas esse conceito traz uma pegadinha. Sugere que uma pequena minoria praticou os atos para surpresa do grosso dos manifestantes. Ignora os aplausos, as pessoas que comemoraram aos gritos a derrubada das torres. Ignora que a intolerância politicamente correta é aceita por boa parte dos manifestantes.

É assim não só no Chile. Vimos a mesma intolerância nos ataques contra estátuas de Winston Churchill e Cristóvão Colombo, em junho. Ou nos jovens jornalistas do New York Times indignados porque o jornal teve a audácia de publicar um artigo de opinião de um político contrário ao Black Lives Matter. E nos cancelamentos de jornalistas e professores em universidades americanas que ousam publicar estudos que divergem do movimento negro ou feminista. Em todos esses casos, a ideia central é a mesma: “aquilo que não é meu espelho moral deve ser derrubado”. O cientista político Mark Lylla insiste que esse tipo de ativismo radical tem se revelado um tiro no pé, ao afastar o cidadão médio das pautas da esquerda. Se para ser de esquerda é preciso achar Churchill racista e concordar com incêndios em igrejas, o sujeito normal prefere votar em Donald Trump. No domingo, os chilenos decidirão num plebiscito se querem uma nova Constituição. As pesquisas mostram uma ampla vantagem dos defensores da nova Carta. Mas, dado o potencial de espantalho dos atos desse domingo, nunca se sabe.

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Queridos leitores, com imensa alegria estreio hoje esta coluna no portal da Jovem Pan. Nos veremos todas as segundas e quintas-feiras discutindo equívocos politicamente corretos e o que houver de mais polêmico na semana. Conto com seus comentários e sugestões. Um abraço!