Marco Antonio Villa: Radicalismo que vivemos é único na história republicana

  • Por Marco Antonio Villa
  • 08/04/2019 10h26
Estadão ConteúdoO ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo

Sem política não há democracia e sem democracia não há política. Parece óbvio, mas não é quando estamos no Brasil. Estamos vivendo um caso único na nossa história.

Se olharmos a história republicana, não há um momento de tal radicalismo como o que estamos vivendo e de tal pobreza de ideias. E o radicalismo também é produto da pobreza de ideias.

Se não tem ideias consistentes, uma visão ideológica de mundo consistente para apresentar, você apela para o radicalismo, para o primarismo, o que é muito marcante no Brasil, um país que nunca teve uma tradição de grandes debates políticos ao longo da história.

Nós estamos vivendo também uma crise de lideranças. Quais sãos as grandes lideranas políticas do Brasil? No Parlamento e fora dele?

Isso faz com que haja uma explicação muito primária dos fatos, desconhecimento e falta de se debruçar sobre os estudos, do conhecimento das questões econômicas, políticas e das ideologias — porque nõa há leitura de mundo sem ideologia. Não existe uma leitura não ideológica.

Quem dizia isso era o pensamento marxista, dizendo que o marxismo tinha uma visão científica e as outras ideológicas. Esse momento é extremamanete difícil e se busca sempre encontrar a culpa. Alguém sempre tem culpa.

A imprensa é sempre a primeira a ser culpada. O PT fazia a mesma coisa. Vamos lembrar o financiamento dos blogs sujos. A culpa era da imprensa. Não adianta falar agora que a culpa é da imprensa. Contra fatos não adianta brigar.

Por outro lado, há correntes muito fortes dizendo que a culpa é da democracia. Lembra um pouco o discurso petista também. Lembram-se quando Lula dissertou sobre o chavismo, dizendo que havia excesso de democracia na Venezuela? Estão vendo como os extremismos se aproximam?

Eles atacam as instituições existentes, como se problema fosse as instituições e não forma como elas agem e seus componenetes. Quantas vezes falamos de decisões extremamente problemáticas e questionáveis do Supremo Tribunal Federal? Mas em momento algum colocamos que não era necessária a existência do STF. Ele é indispensável para a ordem constitutcional e para o estado democrático de direito.

O mesmo se aplica ao Congresso Nacional. Não adianta nada o Executivo ter uma proposta, enviá-la ao Congresso e dizer que fez a sua parte. Após entregar a proposta, os parlamentares têm independência para analisá-la, discuti-la, vetá-la, modificá-la ou aprová-la. É uma condição indispensável o diálogo entre Executivo e o Legislativo.

Só há democracia com política, esse extremismo não apresenta alternativa para o Brasil.

Estamos paralisados nesse momento e impedindo que a economia possa decolar porque o primeiro pressuposto da economia é resolver crise política. Ela está submetida à política. Enquanto não resolvermos pontos de estrangulamento na política, a economia não vai voltar a crescer como todos nos gostaríamos que ocorresse.