A era da exibição de filmes no cinema está próxima do fim

Em pouco tempo a sala de cinema tal qual a conhecíamos deixará de ser o santuário da sétima arte, porque o streaming vai dominar tudo

  • Por Marcos Petrucelli
  • 08/01/2021 09h00
Krists Luhaers/UnsplashSalas de cinema pelo país reabriram em outubro, seguindo protocolos de segurança recomendados pela OMS

Há cinco meses, eu estreava aqui no site da Jovem Pan com este espaço dedicado ao universo dos filmes e séries de televisão, além de comentários analíticos sobre o mercado e a política do audiovisual. Meu primeiro artigo, intitulado “O cinema não será mais visto da mesma forma”, analisava o ambiente do entretenimento audiovisual em meio à pandemia do coronavírus, quando as pessoas – motivadas ao distanciamento social – levaram o cinema para dentro de suas casas. Consequentemente, houve um crescimento exponencial na venda de aparelhos de TV e nas assinaturas dos serviços de streaming. Cinco meses parece bem pouco, mas, como a ciência já nos ensinou, o tempo é relativo. Por isso mesmo sinto a necessidade de uma atualização do tema. Foram inúmeros acontecimentos, mudanças drásticas no nosso comportamento e alterações de rumo numa das indústrias líderes da cadeia produtiva que, mais do que impactantes, acenam para um caminho definitivo e aparentemente de mão única.

Caso o mundo não tivesse sido acometido por uma pandemia que obrigou salas de cinema a encerrarem suas atividades, essa seria aquela época do ano em que os principais estúdios estariam anunciando os chamados filmes da temporada de premiações. São produções que deveriam estrear até o último dia do ano anterior para atender às regras dos prêmios mais cobiçados (os dos sindicatos, mas principalmente do Globo de Ouro e o Oscar) e que agora começariam a fazer sucesso. Passaríamos pelos cinemas e lá estariam os cartazes e trailers das produções que certamente surgiriam nas listas de indicados. Até onde se sabe, não houve alteração de regra alguma em relação à data limite de estreia que garanta elegibilidade nestas premiações. Ocorre que esses lançamentos não aconteceram nos cinemas, já que muitos deles se mantiveram fechados. Assim, basta uma rápida pesquisa nos sites das publicações especializadas, como Variety e The Hollywood Reporter, para constatarmos aquilo que há bem pouco tempo muita gente graúda na indústria não aceitava e muito menos cogitava: quem dita as regras do mercado são os canais de streaming, que abocanharam quase 90% dos lançamentos.

Ainda sobre aquele meu artigo de estreia por essas bandas, lembro que mencionei uma polêmica que dominou as manchetes das publicações de entretenimento e audiovisual: festivais de cinema pelo mundo, como Cannes e Berlin, recusavam-se a exibir na competição produções que não haviam sido feitas para a tela grande. Os organizadores desses eventos, além de famosos produtores e diretores, como Martin Scorsese, defendiam a ideia de que somente filmes produzidos para cinema eram considerados… cinema! Como dizem os americanos, “bullshit”! Rapidamente, todos os grandes estúdios de Hollywood foram obrigados a se reinventar, criando novos mecanismos. As janelas de exibição (aquele espaço de tempo entre o lançamento de um filme no cinema e depois nos serviços de assinatura) praticamente foram extintas. Com centenas de obras já embaladas para o lançamento, poucos executivos quiseram arriscar seus investimentos aguardando a reabertura das salas – sem qualquer previsão – e logo trataram de incluir os títulos nas grades de programação das TVs a cabo e do streaming.

Além de fórmulas mais imediatistas, vimos empresas que não hesitaram sequer em reelaborar seus planos de negócios. A mais importante delas é o grupo Disney – que compreende também a Pixar, Marvel, LucasFilms, Hulu e 20th Century Studios, entre outras. Percebendo a gigante alteração do mercado, sobretudo o comportamento de centena de milhares de consumidores pelo mundo, a Disney decidiu que o foco de toda a sua produção audiovisual a partir de agora será o streaming. E se a Disney chegou a essa conclusão, não é difícil supor que todos os grandes estúdios, sejam em Hollywood ou qualquer outro país do mundo, também seguirão a mesma onda. O ano de 2021 já começa com inúmeras transformações e grandes desafios. Vários países iniciaram o processo de vacinação contra a Covid-19, o que infelizmente não significa que estamos libertos e completamente imunes à pandemia. Seja como for, um novo estilo comportamental se estabeleceu. É mais gostoso, mais seguro e muito mais barato assistir a um filme dentro de casa. Milhões de pessoas pelo mundo perceberam e se acostumaram com isso. A indústria certamente fará de tudo para agradar a todos esses consumidores. Diante dessa constatação, faço a minha previsão: a era do cinema está próxima do fim. Não será da noite para o dia, mas em pouco tempo a sala de cinema tal qual a conhecíamos deixará de ser o santuário da sétima arte. Aqui e acolá encontraremos um ou outro complexo, dedicado somente a uma Avant Premiere, uma retrospectiva e mostras especiais de um grande diretor. É triste imaginar tal cenário, mas esses são os tempos modernos.