Artistas vestem ideais políticos e usam ‘dois pesos e duas medidas’ nos casos de Marcius Melhem e Sikêra Jr

Omissão da classe em relação às denúncias das mulheres assediadas pelo humorista e a guerra travada com o apresentador denotam a hipocrisia de grupos que se vestem de seus ideais políticos avessos à direita e buscam denegrir a imagem de apoiadores do presidente

  • Por Paulo Mathias
  • 01/11/2020 08h00
Divulgação/GloboHumorista da TV Globo é acusado de assediar ex-funcionárias

Esta semana foram destaque na mídia dois temas que lidam com o assédio sexual e a zoofilia, tendo como protagonistas, de um lado, o ator e ex-diretor da Rede Globo, Marcius Melhem; do outro, o apresentador, Sikêra Júnior, acusado por muitos de fazer uma apologia ao abuso sexual de animais. No caso de Marcius, a questão gira em torno de várias denúncias de mulheres que dizem ter sido assediadas por ele, dentro da emissora, e resolveram “botar a boca no trombone”, exigindo a retratação de tais atos por parte da empresa. Não bastando isso, o tema “zoofilia” inundou as redes sociais, unindo artistas em campanha contra uma brincadeira feita por Sikêra em seu programa. Colocando frente a frente duas notícias que movimentaram a mídia, qual delas mais choca e causa indignação? Novamente em cheque, dois pesos e duas medidas.

Para entender melhor o que ocorreu no caso do ator Marcius Melhem, o depoimento recente das vítimas assediadas pelo ator trouxe à tona, na voz de uma advogada que defende a causa, mais de seis relatos de mulheres que se sentiram incomodadas com a postura neutra da emissora em relação ao fato. Essas mulheres, muitas delas que concorriam a papéis de atuação na rede Globo, se viram forçadas por Marcius a conviverem em um ambiente tóxico, em pleno trabalho, provocado por atitudes desrespeitosas, perseguições por mensagens de cunho sexual e outras manifestações contrárias à vontade das envolvidas, em troca da continuidade delas na emissora. O ocorrido no final de 2019 voltou a ser pauta dos veículos de comunicação, quando essas mulheres decidiram exigir respostas da empresa, que, embora tenha demitido o diretor do setor humorístico da Globo, sem maiores explicações, não deu a elas retorno para o caso, provocando um sentimento de indignação por parte das assediadas. Ao ser procurada repetidas vezes pelas vítimas, a direção da Rede Globo sequer se manifestou, deixando as reclamantes, mais uma vez, sem compreender a postura da cúpula desse canal. No processo de desligamento do humorista, não houve qualquer tipo de menção ao fato. Mas isso serviu de gatilho para um grupo de funcionários da empresa televisiva se unirem recentemente a essas mulheres, em favor de uma movimentação por parte da Globo para quebrar o silêncio e oferecer soluções concretas para o acontecido. Marcius, por sua vez, nega com veemência qualquer implicação nesse sentido, declarando publicamente sua inocência. Porém, o que mais espanta nessa questão não é a fala do ator, nem mesmo a postura de diretores da emissora, mas a omissão da maioria da classe artística diante de um fato que causou repulsa em muitas pessoas.

Em contraste com a notícia relatada, essa mesma classe artística que se omitiu descaradamente perante um fato de assédio sexual, se uniu nesta semana para detonar o apresentador Sikêra Junior, o acusando de fazer apologia à prática de zoofilia, em seu programa, Alerta Nacional, transmitido pela Rede TV. A reportagem em pauta diz respeito a uma mulher que teria flagrado o marido praticando atos de abuso sexual com uma égua. Em um tom descontraído, o apresentador simulou o ocorrido, na interpretação da cena por seus ajudantes de palco, o que se transformou no estopim para dezenas de manifestações de repúdio por parte de artistas, como Xuxa, Luísa Mel, Ana Maria Braga, Angélica, e tantos outros que se uniram em campanha de ódio contra o apresentador, com a hashtag #zoofilianaoeumapiada, que se viu na berlinda por retratar tal cena. Sikêra logo se defendeu, demonstrando em público ser contra qualquer ato dessa natureza, o que passou despercebido pela classe artística, que usou desse artifício para defender outros ideais, que não moralistas.

Face a face, esses dois casos requerem atenção, pois a omissão dos artistas em relação às denúncias das mulheres assediadas pelo humorista Marcius Melhem e a guerra travada com o apresentador Sikêra denotam a hipocrisia de grupos que, na realidade, não estão nem um pouco preocupados em defender uma causa em nome da honra, mas que se vestem de seus ideais políticos avessos à direita e buscam denegrir a imagem dos apoiadores do presidente em exercício. Uma guerra fria, portanto, silenciosa, de cunho político e ideológico. O que fica no ar, aguardando respostas é: se fosse o apresentador um representante da esquerda e o humorista um homem de direita, essas situações teriam o mesmo desfecho? Essa troca de papeis traria os mesmos resultados? Com certeza, a resposta é não. Assim, digo e repito que na presença de dois pesos, restam sempre duas medidas, que serão interpretadas de acordo com as suas convicções.