Será que as aulas nas escolas enfim voltarão?

Escolas precisam manter diálogo com professores e pais de alunos, adaptar novos protocolos de higiene e fazer planejamento para que ano letivo de 2020 seja recuperado

  • Por Renato Casagrande
  • 26/01/2021 15h40 - Atualizado em 26/01/2021 16h52
Dirceu Portugal/Estadão Conteúdo - 09/07/2020Escolas, gestores e professores precisam de autoavaliação para melhorar sistema de aprendizagem quando aulas presenciais voltarem

Começamos um novo ano letivo com um fato inédito na história da educação brasileira, a união de dois anos letivos em um ano só.  Depois de várias tentativas, praticamente todas as escolas e sistemas educacionais encerraram 2020 de qualquer maneira. Não conseguimos fazer uma avaliação real da aprendizagem dos alunos no decorrer do ano. Agora estamos iniciando o 2021 não muito diferente. Continuamos sem certezas, sem direcionamento, sem previsibilidade. E, ainda, com o desafio de recuperar o ano passado e dar conta de um novo e desafiante ano. A maioria das escolas postergou um trabalho que não pode mais ser deixado em segundo plano. É preciso selecionar os conteúdos fundamentais que não conseguiram ser trabalhados ou bem desenvolvidos. Não se trata de reposição, nem mesmo de recuperação de aulas ou conteúdos. Trata-se de readequar, reescrever o projeto pedagógico da escola, que atenda a unificação desses dois anos letivos e que dê conta da aprendizagem essencial que não ocorreu no ano passado. 

Esse projeto deverá ser construído não de forma estanque. Vamos precisar de tempo para que essa construção se efetive. Primeiro, é necessário que se faça um bom diagnóstico da aprendizagem e, a partir daí, consiga se identificar os principais problemas, aluno por aluno. Esses problemas devem ser comunicados aos pais, e o plano de recuperação deve ser individualizado, com acompanhamento desses pais. As escolas precisam conversar com os pais e apresentar a eles uma espécie de boletim de aprendizagem em que a família consiga identificar o que o aluno de fato aprendeu, o que ele deveria ter aprendido e o que faltou aprender. Também deverá ser apresentado o plano para este ano. Mesmo sendo um trabalho difícil, é preciso prestar contas para os pais e apresentar o projeto de recuperação dessa aprendizagem. 

Para os pais que estão insatisfeitos ou desapontados com as atividades remotas realizadas no ano passado, a escola precisa ter um diálogo franco e aberto, apresentando as dificuldades por parte dos professores, dos alunos e também da família. Aprendemos que o ensino remoto ou mesmo o ensino híbrido, a nova tendência deste ano, só será efetivo se houver a participação e envolvimento dos pais. A criança, na maioria das vezes, não tem maturidade suficiente para fazer a gestão e a organização das atividades de aprendizagem realizadas em casa, muitas vezes sem a supervisão do professor. É preciso que escola, gestores e professores assumam com franqueza as dificuldades, os erros cometidos e a incapacidade de oferecer ou ministrar aulas remotas, como fazíamos com as aulas presenciais. É importante lembrar que já vivíamos uma crise de aprendizagem no sistema presencial, e não seria de esperar que pudéssemos resolvê-la como num toque de mágica. Mesmo com todo o esforço realizado pelos professores, que deram um “show” em termos de inovação, dedicação e reinvenção da aula, não foi possível garantir uma qualidade que nos desse uma tranquilidade para começar bem o novo ano letivo.

Tivemos inúmeros problemas de conexão, de desmotivação, de professores doentes, de falta de estrutura e organização, de falta de planejamento e comunicação, de falta de controle e também de uma liderança nacional que pudesse organizar melhor todo o sistema de ensino remoto implantando no último ano. Assim, é muito importante que a escola consiga demonstrar para os pais mais segurança para o enfrentamento deste novo ano. É preciso apresentar aos pais o plano de trabalho a ser desenvolvido neste ano pela escola, com detalhamento das atividades pedagógicas, tanto as curriculares como as extracurriculares. Com a implantação do ensino híbrido, também é fundamental que os pais entendam o funcionamento e o que a escola espera deles nessa nova modalidade de ensino, que também é a junção do ensino presencial e não-presencial. E são várias modalidades de ensino híbrido. Em estudos que realizei recentemente, e que posteriormente publicarei aqui, identifiquei dez modelos de modalidades que podem ser implantados. Cada um, com suas peculiaridades, exigirá dos alunos, pais, professores e gestores escolares um bom preparo para conseguir atingir resultados. 

Um outro ponto importante na volta das aulas nas escolas é com relação a todas as normas de higiene, ou seja, nós puxamos para dentro da escola toda a responsabilidade pelo cuidado com as crianças e adolescentes no momento em que voltamos às aulas. Hoje a responsabilidade é da família, dos pais, mas quando retomamos as aulas estamos puxando essa responsabilidade para a escola. Sendo assim, todos os professores passam a ser agentes, coordenadores e orientadores de saúde. Portanto, além de precisarmos dominar e conhecer as novas normas de saúde ainda vamos ter de educar os alunos, informá-los, orientá-los e controlá-los para que os seus comportamentos estejam alinhados com as normas e os protocolos atuais de higiene e saúde.

É fundamental também conseguirmos adequar as escolas com o distanciamento exigido, as salas adaptadas, novas turmas que serão formadas, as instalações de pias, marcações de espaços, ou seja, tudo isso que os outros setores já estão fazendo. Acredito que vai ser um grande desafio para a escola. Nós lidamos com uma quantidade grande de alunos e com poucos funcionários em relação ao número estudantes que a escola atende. Creio que estes são os grandes aspectos que devem ser observados de imediato no retorno às aulas. Há muito mais, mas vamos esperar um pouco para avançarmos neste debate. Já temos muitas atividades para serem realizadas agora. Não são simples, não são fáceis, mas são indispensáveis, se desejarmos ter um ano letivo um pouco melhor que 2020.

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.