Constantino: ameaça comunista nunca esteve tão forte?

  • Por Jovem Pan
  • 21/12/2019 07h43
EFE/EPA/PETE MAROVICHErnesto Araújo

O ministro Ernesto Araujo publicou um texto no site Terça Livre que fala do horizonte comunista que ronda o continente e ataca os liberais no processo.

“Dizia Mao Tse Tung ‘de derrota em derrota, até a vitória final, esse é o programa: aproveitar as aparentes derrotas pra fortalecer e seguir avançando’. Pode-se argumentar que, nesse seculo XXI, o projeto comunista está mais forte do que nos anos 80 – justamente porque ninguém o vê e pode operar à sombra da sociedade de consumo”, escreve o ministro.

Claro que a esquerda radical se adapta e parece não morrer nunca mesmo. Também é verdade que o melhor truque do diabo é se fingir de morto, fingir que não existe. Ou seja, quando todos acham que o comunismo acabou ele pode comer pelas beiradas.

O líder socialista Norman Thomas já tinha profetizado em 1948 que o povo americano adotaria cada parcela do programa socialista sob o nome de liberalismo. Basta ver a a radicalização do partido democrata para levar a profecia a serio.

Dito isso, meu problema com a tese do ministro é que se trata de uma dialética impossível de refutar. A cada derrota acachapante dos comunistas, o sujeito poderá alegar que eles se mostram ainda mais fortes.

O Foro de São Paulo tomou o poder em boa parte da América Latina e isso prova a vitalidade comunista. Cada um deles foi retirado do poder, os lideres acabaram presos e os partidos derrotados. Prova da vitalidade comunista. Cara eu ganho, coroa você perde.

Lula foi preso, PT foi derrotado e Bolsonaro virou presidente – mas a ameaça comunista nunca esteve tão forte. Vão já, portanto, 30 anos em que o marxismo está cavando túneis por baixo da superfície, aparentemente segura e tranquila, da sociedade liberal – diz Ernesto. Eu não discordo.

Mas o sistema liberal talvez não seja tao frágil quanto os reacionários pensam. Talvez tenha maior resiliência, pode até ser antifrágil – para usar o termo de Nassim Taleb. Afinal, já enfrentou inimigos piores.

O mundo já flertou com o totalitarismo coletivistas de esquerda para valer, quase sucumbiu ao comunismo imperialista soviético. E o trio formado por Ronald Reagan, Margaret Thatcher e Papa João Paulo II afastou essa ameaça colocando os vermelhos para correr.

Não eram reacionários pregando receitas radicais ou autoritárias, mas sim liberais legítimos de viés conservador. A principal fragilidade do sistema liberal é a seguinte, diz ernesto: o sistema liberal não pensa, não trabalha no mundo das ideias. Criou uma repulsa por tudo aquilo que acham ideológico.

O ministro confunde aderir a uma ideologia com pensar – o que vai contra todas as lições importantes dos próprios conservadores. A fala do ministro trai a sua mentalidade tribal, expõe o comunismo ao confessar uma ideologia.

Os liberais lutaram muito no campo das ideias para derrotar o comunismo, o marxismo. Os liberais sérios e conservadores de boa estirpe não estão acomodados, como diz Ernesto Araujo. Mas, sim, lutando contra os diferentes radicalismos.

A grande diferença é que não acham que há duas alternativas de modelo apenas, que o mundo se divide de forma binária e maniqueísta. Não enxerga o comunismo em tudo aquilo que não é reacionário. Há tons de cinza, nuances, gradações.

O mundo é imperfeito, as democracias liberais tem muitas falhas, sim. Mas não é apelando para populistas messiânicos e autoritários que vamos avançar.