Constantino: Bolsonaro não pode liderar facção agressiva se quiser ser o líder da nação

  • Por Jovem Pan
  • 18/05/2019 07h38
Alan Santos/Presidência da RepúblicaBolsonaro tem a oportunidade de se mostrar um verdadeiro estadista

O momento é delicado. O governo federal está falido, assim como vários estados, e o rombo é uma bola de neve crescente, que vai virar uma avalanche gigantesca em breve. O principal dreno é a Previdência. Economistas sérios entendem isso e vêm alertando para o perigo. A equipe de Paulo Guedes preparou uma reforma decente, que contém a sangria.

Mas um alienígena que chegasse ao Brasil hoje poderia jurar que está em outro país, talvez na Austrália, quiçá na Suíça. Debate-se nas redes sociais baboseiras, pautas secundárias, para dizer o mínimo. Vemos lacradas e mitadas por todo canto, mas poucos debatendo seriamente sobre a prioridade número um. Perde-se tempo e energia demais com barulho.

Claro que a culpa não é apenas de Bolsonaro. Venho criticando muito a postura do presidente, em especial por dar trela demais aos seus filhos e seu guru, adotando discurso tribal, hostil, que alimenta a militância virtual, mas em nada ajuda na necessária articulação com o Congresso e persuasão da sociedade.

Mas óbvio que o próprio Congresso não ajuda, com o “centrão” fisiológico sentindo cheiro de fraqueza e cobrando mais caro pelo apoio. A imprensa tampouco contribui, com sua torcida contra o governo, deixando a ideologia falar mais alto do que a análise muitas vezes.

O problema é que a postura da mídia e do Congresso já era esperada. Afinal, quem achou que o Brasil seria a Nova Zelândia num piscar de olhos? O Congresso também foi eleito, da mesma forma que o presidente, e as mudanças dependem do Legislativo, não podem ser feitas por decreto do Executivo. Logo, é óbvio que será preciso contemporizar, ceder, atrair base maior, abandonar algumas pautas secundárias para conseguir aprovar as principais. É parte do jogo democrático!

A missão de unir a maioria em torno de um projeto comum deveria caber ao presidente eleito com quase 58 milhões de votos. Por isso as críticas maiores a ele. Do Rodrigo Maia ninguém esperava nada muito diferente. Da imprensa, idem. Mas Bolsonaro tem a oportunidade de se mostrar um verdadeiro estadista. Mas para isso terá de abandonar o desejo de jogar para sua plateia, de mitar nas redes sociais, de alimentar a militância virtual raivosa. Não poderá liderar uma facção agressiva se quiser ser o líder da nação!