Rodrigo Constantino: Risco de corruptos irem para o inferno é o Brasil ir junto

  • Por Jovem Pan
  • 23/03/2019 08h25 - Atualizado em 23/03/2019 10h23
DIDA SAMPAIO/ESTADÃO CONTEÚDO Ex-presidente Michel Temer foi preso na quinta-feira

Há uma turma barulhenta nas redes sociais que parece adotar a máxima fiat justitia, pereat mundus, ou seja, que se faça justiça mesmo que o mundo pereça. É corrupto? Então só isso que importa: cadeia! Essa gente, cuja indignação com o estado de coisas no país é perfeitamente legítima, não quer saber de “detalhes” como se a prisão preventiva está de acordo com o estado de direito ou quais seus efeitos para a reforma necessária. Se a economia tiver que afundar para pegarmos mais alguns corruptos, que seja!

Alguns acham que Rodrigo Maia não importa, mas não é bem assim. É o que constata o deputado Paulo Eduardo Martins, conservador, da base governista, e cuja prioridade declarara é aprovar essa reforma:

“Noto muita gente dizendo que o Rodrigo Maia está atrapalhando a reforma. É uma visão equivocada. Maia tem trabalhado muito para viabilizar a aprovação. Você pode não gostar dele, mas é fato que ele tem feito esse trabalho. Desgastar um aliado da reforma é atrapalhar a mesma.”

A mensagem é um tanto óbvia, mas o clima no país, especialmente nessa ala mais bolsonarista que endeusa a Lava Jato, não está propício para reflexões sérias e ponderadas. O pessoal quer sangue! E se você não oferecer isso, eles vão embora, não sem antes te xingar, te acusar de defensor de bandido, de vendido (toda imprensa foi comprada, dizem).

Nem todos que festejaram a prisão de Temer são jacobinos, claro, assim como nem todos que ficaram preocupados defendem corruptos. A mentalidade jacobina é justamente aquela que não liga para possíveis desdobramentos de ordem prática e ainda acusa quem se preocupa com isso de “vendido” ou esquerdista.

É um ambiente tóxico para o debate, para construção de instituições mais sólidas, para o avanço de reformas. É um clima pré-revolucionário. Estão todos preocupados com a caça às bruxas enquanto o navio afunda em alto mar. E o problema, claro, é que nós, que não somos bruxas, estamos no mesmo navio, e poderemos afundar juntos com essas malditas bruxas…

Em vez de todos se unirem para tapar os buracos responsáveis pela água que entra, muitos estão mais interessados em caçar bruxas, em degolar corruptos, “doa a quem doer”. O único problema é que talvez vá doer demais, e em todos, caso o navio realmente vá a pique.

Que todos esses corruptos vão para o inferno! Ok, também gosto disso. Mas o risco é o Brasil ir junto.

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.