Desemprego baixo mantém a população feliz? Depende muito

Segundo um estudo recente publicado no Development Policy Review e feito no Peru, Etiópia, Índia e Vietnã, quanto maior a capacidade de viver com conforto e bem-estar, maior a satisfação pessoal

  • Por Samy Dana
  • 10/08/2021 10h00
Márcio Fernandes de Oliveira/Código Imagem/Estadão ConteúdoTaxa de desemprego no Brasil está perto dos 15%

Aqui no Brasil, com o desemprego perto dos 15%, as pessoas, antes de tudo, querem trabalhar. Nesta circunstância, muitas vezes qualquer emprego basta. É comum pensar a partir disso que a taxa de desemprego pode ser um bom indicador sobre a felicidade da população. Se está alta, há mais pessoas infelizes. Uma taxa mais baixa garante que elas estão mais satisfeitas. É lógico que, numa situação extrema, com o desemprego alto como agora, é verdade. Se ninguém trabalhar, sem renda, haverá pouco bem-estar. Mas uma situação de pleno emprego é mesmo garantia de que todos estão felizes? O melhor meio de saber é perguntar aos trabalhadores. E as respostas em geral dizem que não. Depois de um tempo, as pessoas se mostram infelizes e desmotivadas se não gostam de seus empregos.

Mas esse tipo de pesquisa quase sempre é produzido nos países ricos, principalmente nos Estados Unidos e na Europa, abrangendo muitas vezes pessoas que vivem em locais onde as condições de vida são melhores e as oportunidades, muito maiores. Talvez o resultado refletisse a realidade das economias desenvolvidas, mas não, por exemplo, do Brasil. Daí a importância de um estudo recente publicado no Development Policy Review. Os quatro envolvidos – Peru, Etiópia, Índia e Vietnã – são países em desenvolvimento. O foco é nos trabalhadores jovens. No Peru, por exemplo, o desemprego entre quem tem menos de 22 anos é de 7,3%. Supera a taxa de desemprego nacional, de 6,2%. Já na Índia, enquanto o desemprego está em 7%, entre os jovens, passa dos 23%. São países onde conseguir emprego já é uma vitória. Mas e depois? Foram 12 mil respostas analisadas.

No Peru e na Índia, os jovens costumam ter a mesma jornada de trabalho, de oito horas diárias. Mas ganhando quase três vezes mais – US$ 3,06 contra US$ 1,24 por hora trabalhada –, o percentual de peruanos que se dizem satisfeitos com a vida foi 30% maior. Quanto maior a capacidade de viver com conforto, por exemplo, comprando eletrodomésticos, maior a satisfação pessoal nos relatos. Não tinha a ver com estar trabalhando ou não. Se recebiam algum tipo de auxílio do governo, desempregados indicavam ter uma felicidade com a vida maior do que pessoas que tinham um emprego em um local que viam negativamente, como uma sala escura demais, ou com salário muito baixo. Trabalhadores por conta própria são os mais afetados. As indicações de bem-estar ficaram abaixo de qualquer outro grupo. Pegar o emprego que vier pela frente funciona em situações de desespero, quando o mercado não oferece oportunidades. Pode-se argumentar que, se o desemprego está baixo, as oportunidades são maiores. Mas não, uma taxa menor por si só não garante felicidade. O estudo demonstra que, para o bem-estar da população, importa que as pessoas gostem de trabalhar onde trabalham. E que sintam que estão prosperando.