Elefantes brancos de trilhões de dólares, cidades-fantasma chinesas ganham moradores

Por 15 anos, o ousado plano habitacional chinês intrigou o Ocidente, mas agora há um movimento de ocupação dos prédios e casas vazios; preços dos imóveis triplicaram em alguns distritos

  • Por Samy Dana
  • 09/09/2021 10h00 - Atualizado em 09/09/2021 14h03
Oriental Image via Reuters ConnectKangbashi, a maior das cidades-fantasmas, conseguiu atrair moradores oferecendo escolas de alta qualidade

Construídas no meio do nada e habitadas por ninguém, as cidades fantasmas da China fascinaram os ocidentais nos últimos 15 anos. Fotos destes imensos empreendimentos urbanos são populares na internet, mostrando torres de apartamentos vazias, avenidas enlameadas sem carros e até réplicas de ícones arquitetônicos mundiais, como as pirâmides do Egito ou a Acrópole, na Grécia, totalmente abandonadas. São projetos ambiciosos que acabaram encalhados por falta de moradores. E que, segundo o próprio governo chinês, desde 2009 desperdiçaram investimentos de US$ 6,8 trilhões. Para se ter uma ideia, foram gastos mais de quatro vezes todo o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, que, no ano passado, atingiu US$ 1,34 trilhão, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI).

Para corrigir um déficit imobiliário crônico no país, no começo do século o governo chinês vendeu às incorporadoras terras baratas nas áreas próximas a polos econômicos. Mas o ritmo de construção muitas vezes ultrapassou a quantidade de novos moradores, gerando em torno de 50 cidades-fantasmas (que, na verdade, não são cidades). A maioria está localizada na área urbana das cidades já existentes, em distritos ou novos bairros. Também colaborou muito o formato da venda dos novos imóveis. Como ofereceu terrenos subsidiados, o governo proíbe que os desenvolvedores cobrem mais de 5% acima do custo de construção pelos imóveis mais valorizados. Só nas habitações populares prevalece o livre mercado. As construtoras preferem deixar os imóveis vazios a oferecer descontos e vender com prejuízo, criando uma paisagem fantasma.

Mas, depois de uma década e meia, as cidades finalmente estão se tornando menos fantasmagóricas. Kangbashi, a maior delas, perto da fronteira com a Mongólia, conseguiu atrair moradores oferecendo escolas de alta qualidade. Passou a receber pais e alunos em busca de preparação para conseguir entrar numa das principais universidades do país, onde a competição é acirrada. E os preços dos imóveis triplicaram. É difícil, devido à falta de dados oficiais, saber de fato o ritmo de ocupação. Mas os indícios são de que o movimento é generalizado e vem ganhando tração, com os preços dos imóveis triplicando em alguns distritos Existe muita discussão sobre o fenômeno. Apesar de fantasmas, as cidades impulsionaram o PIB chinês por muitos anos com os gastos na construção. Na visão do escritor americano Wade Shepard, autor dos textos e fotos que popularizaram as paisagens vazias, o governo apostou no futuro, imaginando que iriam suprir em, algum momento, o déficit habitacional no país. Parece que o futuro chegou.

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