Por que a Costa Rica entrou para a OCDE?

Perto dos vizinhos, país é um pequeno oásis de racionalidade em uma região conturbada, o que garantiu o ingresso na organização antes do Brasil

  • Por Samy Dana
  • 20/07/2021 11h00 - Atualizado em 20/07/2021 18h05
Juan Carlos Ulate/ReutersTuristas em frente a uma loja de produtos artesanais em San José, na Costa Rica

Fazer parte da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) é um desejo relativamente antigo do Brasil. A solicitação para se tornar integrante do grupo, um fórum de discussão e de elaboração de políticas entre países, vem de 2017, durante o governo do ex-presidente Michel Temer. Com Donald Trump na Casa Branca, houve a impressão de que se concretizaria. Mas com a pandemia e, depois, a eleição de Joe Biden, o assunto esfriou. Seria importante ser aceito. A OCDE funciona como um selo de boas práticas econômicas, diplomáticas e comerciais, e o Brasil ganharia voz nas mais de 300 comissões temáticas da organização. Porém, para fazer parte, é preciso cumprir uma série de requisitos como o controle da inflação e das contas públicas e o combate à corrupção. São relativamente poucos – apenas 38 – os países que cumprem os requisitos. O que torna mais notável que o 38º tenha sido a Costa Rica.

Em maio, o país da América Central passou a fazer parte oficialmente da OCDE. É o quarto latino-americano, depois do México, Colômbia e Chile. A entrada foi possível porque a Costa Rica apresenta bons indicadores. Está à frente do Brasil no Índice de Desenvolvimento Humano, da Organização das Nações Unidas (ONU), ocupando o 84º lugar. Também está em rankings de liberdade econômica e ambiente favorável a negócios. Com 426 pontos, fica à frente ainda nos resultados do Pisa, teste internacional que mede o conhecimento dos estudantes. O Brasil tem 413 pontos. E também no Produto Interno Bruto (PIB) por habitante – US$ 12,2 mil contra US$ 11,6 mil. Não tem problemas com o narcotráfico, nem com a violência, como os países vizinhos. A sede da Corte Interamericana de Direitos Humanos fica em San José, capital do país.

Além disso, desfruta de estabilidade política, combinando liberdade econômica e grandes programas sociais. Saúde e educação são oferecidas praticamente de graça à população. A economia evoluiu da produção de alimentos para o surgimento de uma indústria de eletrônicos. A estabilidade faz alguns chamarem a Costa Rica de Suíça da América Central. Mesmo assim, para entrar na OCDE, foi preciso seguir um programa de 14 reformas. E não quer dizer que o país não tenha problemas. A pandemia expôs a miséria e a desigualdade entre a população. Com a Covid-19, a economia recuou 2% em 2020 – deve se recuperar 3% este ano. No quesito corrupção, um grande escândalo veio a público este ano envolvendo o governo e empreiteiras nos moldes da Lava-Jato. Mas o próprio presidente, Carlos Alvarado, tomou a iniciativa de pedir ao Congresso uma CPI para investigar o caso. Perto dos vizinhos, é um pequeno oásis de racionalidade em uma região conturbada, o que garantiu a entrada na OCDE antes do Brasil.