Como podemos pensar na quarta dose da vacina, se muitos brasileiros não tomaram nem a terceira?

Essa discussão não cabe neste momento da variante Ômicron; porém, em caráter de excepcionalidade, deve ser ministrada às pessoas com imunossupressão, ou seja, pacientes transplantados, que realizam tratamento de câncer ou que tenham doenças autoimunes

  • Por Sergio Cimerman
  • 19/02/2022 08h00
Divulgação/Governo do Estado de São Paulo Enfermeira de máscara PFF3 mostra frasco de vacina Sociedade Brasileira de Infectologia divulgou posicionamento contrário à quarta dose da vacina

Nestas últimas semanas, estamos voltados a muitas discussões sobre a quarta dose da vacina de Covid-19. São muitas as opiniões que convergem para o lado favorável e tantas outras que, neste momento, preferem aguardar a evolução de estudos mais robustos. Nessa linha de pensamento, eu me junto à Sociedade Brasileira de Infectologia, que, em 10 de fevereiro, lançou um posicionamento contrário, devido à questão de estudos clínicos e, sobretudo, à baixa adesão da terceira dose em boa parte da população brasileira. Dados obtidos no portal do Ministério da Saúde apontam que apenas 24% da população fez uso da vacina na faixa etária de 5 anos ou mais. Como podemos pensar em ter a quarta dose? Não cabe neste momento da variante Ômicron pensar em tal possibilidade. Quarta dose, apenas em caráter de excepcionalidade: deve ser ministrada às pessoas com imunossupressão, ou seja, pacientes transplantados, que realizam tratamento de câncer, doenças autoimunes, dentre outras. 

Aqui a exceção deve ser cumprida à risca. Variante Ômicron é extremamente transmissível e estudos demonstram que, com três doses, a evolução para casos graves e óbito tem sido muito baixa. A grande maioria dos casos internados são de indivíduos não vacinados ou de vacinação incompleta. Será por ignorância? Falta de informação? Ou apenas anti-vaxxers? Perguntas difíceis de serem respondidas. Informação não falta: mídias sociais, canais de rádio e televisão orientando a todo o momento. 

Nesta semana, circulou um vídeo de um grupo de médicos falando mal da vacina nas crianças. Que vai causar transtornos nos próximos 20-30 anos, que as pessoas devem procurar os médicos e fazer exames e que as crianças estão morrendo da vacina. E chegam ao impropério de falarem na existência de casos de necropsias. Isso é terrorismo. Não vacinar crianças é causa de morte, sim. Nos Estados Unidos, temos visto justamente que os não vacinados internam e evoluem a casos graves e até óbito. E como estamos por aqui? Engatinhando. Passos de tartaruga. Pais medrosos, com razão, devido a vídeos e falas nefastas. Como pode isso? As sociedades médicas são de cunho científico e seus membros são eleitos por pares. Tudo se baseia em literatura científica, e não achismo, como alguns julgam. O que mais me deixa espantado é que pessoas de classes abastadas acreditam nessas falácias e, mais, difundem. Replicam os vídeos e ou mensagens, com rapidez, e ainda comentam. Que fase vivemos no mundo. Mais parece partida de futebol entre clubes e cada um defende o seu com unhas e dentes. Onde está a racionalidade?

Casos irão começar a despencar em questão de semanas. Talvez possamos voltar a viver um novo normal, com algumas restrições, sim, mas voltar a produtividade. Estamos perto do final da pandemia. Espero que vire uma endemia. O que nos faltará ainda será a definição de quantas doses de vacinas deveremos tomar por ano. Uma, duas, três? Não sabemos realmente. Ainda há muitas dúvidas. O que nos dá ânimo é saber que evoluímos muitíssimo de quando começou tudo isto. Que fazemos ciência e acreditamos na ciência. Médicos comprometidos difundem informações pautadas em trabalhos científicos de revistas internacionais e de impacto elevado. Agradeço a Deus todos os dias o dom de poder cuidar, ajudar e orientar a população. Este é o verdadeiro papel do médico frente ao seu juramento de Hipócrates.

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.