Contardo Calligaris: ‘Sexo continua sendo o motor essencial da motivação humana’

  • Por Jovem Pan
  • 21/08/2019 12h18
Jovem PanContardo Calligaris foi o convidado desta quarta-feira do Morning Show

Há pouco mais de dez anos, o psicanalista e colunista da Folha de S.Paulo Contardo Calligaris lançou o livro “Cartas a um jovem terapeuta”, que aborda, entre outros temas, os amores terapêuticos, o primeiro paciente, vocação profissional, o dilema curar ou não curar. A obra fez muito sucesso, e agora volta, em edição ampliada, às prateleiras físicas e digitais.

Para falar sobre o livro e discutir algumas questões atuais de nossa sociais, a bancada do Morning Show recebeu Calligaris para um bate-papo nesta quarta-feira (21).

Assim como Freud, o psicanalista italiano também vê o sexo como a força motriz da raça humana. “Acho que o sexo continua sendo o motor essencial da motivação humana, mas diferente de Freud, que achava que tinha quase um fundamento biológico [no ato sexual], porém isso não é suficiente pois todos os mamíferos superiores adultos transam, se reproduzem. Fora os bonobos e os humanos, os animais não parecem fazer um drama sobre o sexo”, disse Contardo.

Ele explica que a nossa “dramatização” sobre a prática sexual tem como base nossa cultura cristã. “O sexo se tornou tão central na nossa cultura porque ela foi construída há 2 mil anos em cima da repressão do sexo, foi um movimento cultural. Gregos e romanos se interessavam muito por sexo, mas nos primeiros séculos do cristianismo houve alguns neuróticos gravíssimos que decidiram que o sexo era aonde o bicho ia pegar. Se dedicar realmente a Deus significava reprimir o seu próprio desejo sexual.”

Com a modernidade também vieram novas formas de relacionamentos e os aplicativos e redes sociais fazem parte da nova dinâmica sexual. “Não gosto de demonizar as redes sociais. Esse negócio de ‘vivo pelos likes’, isso é verdade desde o começo da modernidade, a gente vive para ser gostado. Não era online, não se contava o número de likes”, disse Contardo.

“‘Ah, mas nos aplicativos as pessoas mentem’. Acho engraçadíssimo isso porque na vida real as pessoas mentem sempre. Qual é a novidade? Se você conhece alguém num bar e conversa, são só mentiras. Qual a diferença? Se você não entendeu isso ainda é um problema. Acho que os aplicativos introduziram uma verdadeira revolução e muitas pacientes minhas, sobretudo mulheres de 50 e 60 anos, voltaram a ter uma vida afetiva e sexual acessível graças aos aplicativos.”