Oswaldo Montenegro critica pedidos de intervenção militar: "tendência infantiloide"

  • Por Jovem Pan
  • 03/08/2018 11h47
Johnny Drum/Jovem PanCantor e compositor apresenta novo show pelo Brasil

Oswaldo Montenegro é um cara antigo – no melhor sentido da palavra. Em meio à era dos singles, dos videoclipes pop hiper produzidos e das mega apresentações de estádio, ele vai contra a corrente e estreia o show Serenata inspirado nas serestas barrocas de sua infância em São João Del Rey. Mas esse saudosismo fica apenas na esfera musical. Politicamente, por exemplo, ele se assombra com as pessoas que insistem em olhar para o passado, como aquelas que pedem atualmente por uma intervenção militar no Brasil.

“Pedir a volta da ditadura é um absurdo inclassificável. As pessoas não sabem o que foi, não sabem o que é. Elas têm uma sensação infantil de que assim as coisas teriam uma solução mais rápida. É uma tendência infantiloide de querer soluções abruptas. A democracia não é perfeita e nem é para ser, mas é o máximo que ela pode. Existir uma limitação de poder é o mínimo, existir um congresso é o mínimo, mudar o presidente de 4 em 4 anos é o mínimo. Nessas eleições eu não sei para onde vou, não me decidi. Só sei que essa parte de ditadura eu não quero”, disse nesta sexta-feira (3) em entrevista ao Morning Show.

O músico aproveitou para relatar uma das situações pelas quais passou na década de 1970 no período dominado pelo regime militar no país. Ele tinha apenas 17 anos e escreveu a peça Jesus Cristo, O Rei do Cangaço. Inesperadamente, foi chamado pelo departamento responsável pela censura artística e ouviu uma ameaça bastante direta. O censor afirmou, com todas as letras, que ele só não morreria naquele instante porque era filho de um militar. 

“Imagina o susto. Eu era um jovem de 17 anos! É uma limitação de um princípio fundamental que é o da liberdade. Não entendo discutir isso ainda. Todo o resto eu entendo, isso não”, declarou, fazendo uma análise mais profunda em seguida.

“Politicamente, o artista tem o absoluto direito de participar e se pronunciar e o absoluto direito de não participar e não se pronunciar. Acho que essa polarização é perigosa, pessoas do bem estão brigando entre si. Isso é Maquiavel: dividir para conquistar. Você divide pessoas do bem e abre espaço para os corruptos roubarem. O problema do Brasil é mais ético que político e econômico. Se parar dois dias de roubar, recuperamos nosso ‘preju’. De novo, eu pessoalmente tenho pouca informação para falar da eleição. As ideologias exacerbadas vão ficar no passado, esquerda e direita vão ficar no passado. Temos que ter uma análise mais técnica. Eu não sou informado o suficiente para falar, então só falo no geral: ditadura eu não quero”, completou.

Sobre o show Serenata

Oswaldo apresenta o show Serenata nesse sábado às 22h no Tom Brasil em São Paulo. Como já citamos, a ideia é fazer um resgate de sua infância e de sua adolescência em uma cidade histórica de Minas Gerais. Ao detalhar o projeto, ele contou que chegou a São João Del Rey com cerca de 7 anos e logo se encantou pelos costumes locais.

“Na primeira vez que me levaram para acompanhar uma serenata eu fiquei alucinado. Os músicos saíam pelos becos, pelas ruelas, as pessoas serviam pão de queijo e café, eles cantavam. Fui apadrinhado pelos boêmios da cidade. Cada dia a serenata era em uma casinha. Me falavam que as mulheres das casas eram as noivas deles. Depois descobri que cantamos até em puteiro (risos). Ouvia música barroca na igreja também. Tudo aquilo me despertou vontade de ser músico. Depois fui morar em Brasília e foi o oposto. Fui influenciado pelo rock e pela música nordestina. Mas existe uma diferença grande do que a gente gosta e do que a gente é. Eu gosto de blues, gosto de rock. Só que quando faço rock sou um puta seresteiro barroco! Esse ano quis assumir essa minha verdade”, explicou.

Ingressos e mais informações podem ser encontrados no site do Tom Brasil. Durante a entrevista, Oswaldo também falou mais sobre sua trajetória e cantou algumas palhinhas. Esses vídeos estão no canal do Morning do YouTube.