A lição do bravo soldado Stanislav Petrov

  • Por Caio Blinder/Jovem Pan
  • 21/09/2017 08h35
Stanislav Petrov, das Forças de Defesa Aérea Soviética, morreu em 19 de maio passado, aos 77 anos, mas o fato de que o anúncio tenha sido feito apenas esta semana é um testamento da ingratidão mundial

Estamos em mais um semana que parece do juízo final. Não são apenas catástrofes naturais, como mais um terremoto no México e Maria, o furacão que assola o Caribe. Foi também o discurso sem juízo de Donald Trump na ONU, ameaçando a Coreia do Norte com “destruição total”.

Como falei na quarta-feira, e se o Rocket Man de Pyongyang achar que o Orange Man de Washington não está blefando e apenas disparando seus insultos para aumentar sua audiência? Tudo uma loucura.

Se Stanley Kubrick estivesse vivo, teria material de sobra para uma versão 2017 de Dr. Fantástico, filme feito no auge dos perigos e neuroses da Guerra Fria em 1964, cujo título inteiro em inglês é ilustrativo: Dr. Strangelove ou como aprendi a não me preocupar e amar a bomba.

Como o meu papo está muito louco, vou contar uma historinha de sanidade justamente sobre cenários nucleares, ou seja, sem o juízo final. Na expressão do jornal New York Times, trata-se da história da morte da pessoa mais importante da qual você nunca ouviu falar.

O tenente-coronel Stanislav Petrov, das Forças de Defesa Aérea Soviética, morreu em 19 de maio passado, aos 77 anos, mas o fato de que o anúncio tenha sido feito apenas esta semana é um testamento da ingratidão mundial.

Na madrugada de 26 de setembro de 1983, o coronel Petrov estava de plantão, a cargo de um novo sistema de satélites, monitorando mísseis americanos. Quando os sistemas indicaram que cinco mísseis intercontinentais americanos estavam em rota (viagem de 20 minutos), o coronel Petrov, um ser humano, desconfiou das máquinas. Ele reportou que se tratava de um alarme falso, embora tudo sugerisse que o perigo fosse real.

Claro que o coronel Petrov conhecia os protocolos da doutrina soviética e a lógica apocalíptica das armas nucleares. Um maciço contra-ataque deveria ser desfechado antes que os mísseis americanos atingissem seus alvos.

O episódio de setembro de 1983 é considerado o mais próximo de um conflito nuclear entre EUA e a União Soviética depois da crise dos mísseis em Cuba em 1962.

O ato de coragem ou desafio (se realmente não fosse alarme falso, teria sido traição) salvou, não apenas centenas de milhões de pessoas, mas quem sabe o planetinha.

Um profissional preparado para combater em um conflito nuclear o evitou no momento fatídico. Há pelo menos uma dúzia de histórias com alguma semelhança com a do coronel Petrov.

Ele não foi condecorado e recebeu uma reprimenda oficial por erros no seu relatório. O coronel passou o resto de sua vida graças a uma modesta aposentadoria militar, condenado à obscuridade, ele que justamente impediu as trevas.