Carlos Andreazza: A campanha eleitoral ainda é longo mar a atravessar

  • Por Carlos Andreazza/Jovem Pan
  • 11/09/2018 11h19
Ricardo StuckertHaddad, aliás, é o vencedor da rodada. Ainda antes do impulso de ser formalmente indicado por Lula, o que deve acontecer nesta terça (11), cresceu de 4% para 9%

A pesquisa Datafolha divulgada nesta segunda-feira (10) captou os dez primeiros dias de propaganda eleitoral e os efeitos do atentado contra Jair Bolsonaro sobre o humor do eleitor.

Era esperado que o deputado crescesse – e ele o fez, embora dentro da margem de erro: de 22% para 24%. Não se trata de ascensão fulminante, o que decerto frustra as expectativas daqueles que imaginavam um impacto maior do atentado sobre sua intenção de votos. Não foram poucos os que avaliaram que o episódio dramático teria o condão de liquidar a eleição em seu favor. A esses repito o que venho dizendo: calma. Ainda há muita água a rolar, e 27 dias são uma eternidade em matéria de tempo eleitoral.

Convém olhar os números de pesquisas, sobretudo quando abalados por emoções, com prudência. Mas, diante de uma ocorrência excepcional como a havida com Bolsonaro, e considerando toda a visibilidade que ele teve nos últimos quatro dias, esse crescimento modesto no levantamento do Datafolha impõe que se considere a tese de que o candidato – a galera pira – encontrara mesmo seu teto eleitoral de primeiro turno. Daí por que, ainda que beneficiado pela empatia decorrente do crime que o vitimou, teria pouco corpo a expandir.

Com ou sem teto, maior ou menor, dentro ou fora de margem de erro, fato é que o avanço de Bolsonaro – esse que deriva da mobilização-comoção – tem natureza volúvel, precária. Tende a ser temporário. A história eleitoral é cheia de exemplos de reações imediatas e positivas, disparadas pelo gatilho da solidariedade; mas são exceções as ocasiões em que, à onda de adesão impulsiva, não se seguiu um refluxo – a maré sempre querendo voltar a seu lugar.
É preciso ter isso em mente na hora de analisar os dados de rejeição a Bolsonaro. Porque sobre eles agem especialmente os sentimentos aguçados pela quase morte do deputado. Razão pela qual supunha que veríamos agora alguma redução desse número – ou ao menos uma interrupção na curva ascendente. Mas não. A taxa de rejeição manteve seu firme viés de alta, subindo de 39% para 43%. É espantoso.

Como sabido, o contínuo avançar do índice de rejeição é pré-condição para queda na intenção de votos, sobretudo se combinado ao já referido teto, mesmo tendo o deputado sólida base de votos espontâneos. Não é bom para Jair Bolsonaro o retrato revelado pela pesquisa Datafolha, conforme corroboram os cenários de segundo turno – em que seu melhor desempenho é um empate técnico com Fernando Haddad.

Haddad, aliás, é o vencedor da rodada. Ainda antes do impulso de ser formalmente indicado por Lula, o que deve acontecer nesta terça (11), cresceu de 4% para 9%, empatando tecnicamente com o bloco em que estão embolados Ciro Gomes, Marina Silva e Geraldo Alckmin. Marina está em decomposição, conforme previsto. Ciro avançou para um pouco além da margem de erro, de 10% para 13%, sinal de que sua estratégia tem funcionado e de que é depositário de votos do espólio de Lula. Votos que, segundo avalio, fazem uma espécie de escala no candidato do PDT, mas que devem em boa parte migrar para Haddad assim que transformado no novo luloposte. Já Alckmin, bem, continua empacado, só agora conseguindo beijar a casa dos dois dígitos. Não será fácil a sua vida. Com a estrutura que tem e o volume de tempo na TV de que dispõe, nada, porém, autoriza que seja dado como fora do jogo. Repito: essa campanha eleitoral ainda é longo mar a atravessar.