China tenta resgatar do esquecimento seu sofrido papel na Segunda Guerra

  • Por Agencia EFE
  • 02/09/2015 06h19

Antonio Broto.

Pequim, 2 set (EFE).- A China lembrará nesta quinta-feira com um desfile militar o 70º aniversário do fim de seu conflito contra o Japão, um dos fronts da Segunda Guerra Mundial mais esquecidos pela História, apesar do número de mortes e da crueldade dos crimes de guerra terem sido comparáveis aos da Europa.

Aproximadamente 20 milhões dos 60 milhões de mortos no pior conflito armado da humanidade foram chineses, a maioria civis, vítimas de uma guerra que começou em 1937, dois anos antes de a Alemanha invadir a Polônia, o que faz os chineses se considerarem precursores dessa batalha global contra o fascismo.

“A importância da China na guerra foi ignorada pelo Ocidente durante 70 anos. Devido à Guerra Fria, o país se transformou em um aliado esquecido”, lamentou um dos principais historiadores do conflito, Hu Dekun, em um artigo.

Os chineses lutaram praticamente sozinhos contra os invasores japoneses entre 1937 e 1941, ano em que o bombardeio japonês a Pearl Harbour determinou a entrada dos Estados Unidos no front do Pacífico e desequilibrou a balança.

O fato que iniciou a guerra foi um tiroteio fortuito entre soldados chineses e japoneses na Ponte de Marco Polo, nos arredores de Pequim, em julho de 1937, o que desencadeou dias depois a ocupação da antiga capital imperial chinesa pelas tropas japonesas.

A partir de então, e durante os quatro anos seguintes, uma frágil China, que já arrastava um século de decadência, enfrentou um moderno exército japonês que pensou equivocadamente que conquistaria o antigo império rival em três meses.

O governo chinês do Kuomintang (Partido Nacionalista) e os comunistas de Mao Tsé-tung, até então brigados entre si, assumiram a luta com estratégias inesperadas para Tóquio: os primeiros, abrindo múltiplas pequenas frentes, e os segundos com uma estratégia de guerrilha.

Houve grandes confrontos, lembrados quase que somente pelo cinema bélico de Hollywood, como a Batalha de Xangai, em que as forças chinesas de Chiang Kai-shek tentaram sem sucesso tomar a concessão japonesa dessa cidade durante quase quatro meses de uma luta sangrenta, entre agosto e novembro de 1937.

Também se esquece fora da China da sangrenta conquista dos japoneses da então capital, Nanquim, cenário de alguns dos piores crimes de guerra cometidos pelo Eixo.

Entre dezembro de 1937 e janeiro de 1938, foram massacradas mais de 300 mil pessoas, a maioria civis, durante seis semanas de saques irracionais em uma cidade que os japoneses já tinham conquistado.

Estes crimes foram confirmados por europeus que ficaram na cidade e tentaram salvar civis chineses, como o diplomata nazista John Rabe, um “Schindler oriental” que relatou em seus diários o horror daqueles meses.

Cerca de 20 mil mulheres da cidade foram estupradas, segundo o Tribunal Militar para o Extremo Oriente, e muitas delas depois foram assassinadas a baionetas.

Outro obscuro episódio da guerra foram os testes com armas biológicas e bacteriológicas na Unidade 731, um laboratório mantido pelos japoneses entre 1935 e 1945 na cidade chinesa de Harbin, no nordeste do país.

Ali um número ainda não comprovado de civis chineses – alguns historiadores falam de até 250 mil – foram submetidos a atrocidades comparáveis às que Josef Mengele conduziu nos campos de concentração nazistas.

Os prisioneiros daquele laboratório, entre eles grávidas e crianças, eram inoculados com sífilis, cólera e gonorreia para buscar curas para as doenças que faziam estragos entre os soldados japoneses, e eram vivisseccionados para observar os efeitos dos vírus em corpos ainda vivos.

Também eram testados com eles novas granadas e lança-chamas, ou colocados ao ar livre em temperaturas de até 40 graus abaixo de zero, para testar a resistência humana ao frio, parte de uma planejada invasão japonesa à Sibéria que nunca aconteceu.

Os responsáveis desta Unidade 731 não foram punidos pelos tribunais internacionais de guerra, já que os Estados Unidos assinaram com eles uma anistia em troca de que a informação destes experimentos passassem para mãos americanas.

Outra lembrança dolorosa para a China é a das “mulheres-conforto”, forçadas a se prostituirem para manter alto o moral das tropas japonesas. Calcula-se que 410 mil sofreram esta forma de escravidão, não só na China, mas também na Coreia, Indochina e Filipinas, e que 75% delas morreram.

“Muitas vítimas da guerra, como estas mulheres, continuam a buscar justiça, e certos setores do governo japonês e de sua sociedade tentaram apagar essa história”, afirmou à Agência Efe o pesquisador William Nee, da Anistia Internacional. EFE