Governo argentino condena educação de indígenas chaqueños ao fracasso

  • Por Agencia EFE
  • 12/08/2015 12h58

Nerea González.

Buenos Aires, 12 ago (EFE).- Embora nos últimos anos a educação nas zonas rurais da Argentina tenha melhorado, os avanços não passaram de falsas estatísticas e preconceitos para as comunidades indígenas, condenadas ao fracasso porque em pleno 2015 suas crianças chegam aos dez anos sem saber ler nem escrever.

Em El Impenetrable Chaqueño, uma região do norte da Argentina de 40 mil km2, com uma população indígena muito superior a de outras zonas e indicadores sanitários e educativos inferiores ao do restante do país, ONGs denunciam que a imensa maioria dos estudantes é analfabeta, contou à Agência Efe o coordenador do Centro de Estudos Sociais e Direitos Humanos Nelson Mandela, Rolando Núñez.

Para esta organização, que acompanha a realidade indígena chaqueña desde 2006, as estatísticas oficiais escondem uma realidade que condena à exclusão social, porque, embora os alunos indígenas passem de ano, não aprendem a ler, a escrever, nem as operações básicas da Matemática. Além disso, a desnutrição impede o correto desenvolvimento neurológico.

No âmbito acadêmico, uma voz que clama por esse povo é a do professor Ernesto Cano, que depois de atuar em uma escola de Ensino Fundamental da cidade de Wichí-El Pintado, onde 60% da população é indígena, produziu um relatório denunciando “sérios problemas de alfabetização” que fazem com que os alunos indígenas fracassem totalmente quando chegam ao ensino médio.

“Descobri que as crianças eram aprovadas sem ter sido alfabetizadas”, disse Cano, que foi ameaçado de perder o cargo após a denúncia, mas conseguiu ficar graças ao apoio da comunidade indígena.

Segundo o professor, o problema não é exclusividade de Wichí-El Pintado, mas afeta todo El Impenetrable, onde quase 100% do corpo docente é crioulo (descendentes de europeus nascidos no continente americano) e não conta com as “ferramentas pedagógicas” necessárias para trabalhar em comunidades indígenas.

“Os indígenas têm uma linguagem particular e uma cosmovisão muito diferente da cultura crioula branca. O mínimo que temos que fazer é conhecer à comunidade, conhecer essa cosmovisão e a cultura, para assim poder promover um serviço mais ou menos próximo ao que a comunidade espera. Chegamos aqui e ensinamos da forma crioula, o ensino que é dado em áreas urbanas e, claro, o fracasso é quase contundente”, relatou Cano.

O problema da educação indígena se arrasta desde os primeiros anos de escola, já que o sistema educacional do Chaco não garante que os três primeiros anos do ensino fundamental sejam dados na língua materna e o restante seja bilíngue, como exige a lei argentina, que reconhece a necessidade de preservar estas culturas.

“Alguns professores aconselham, inclusive, às crianças a se quiserem crescer na vida se mudarem a outras regiões para terem melhor educação, o que vai contra a proteção destas culturas, que na Argentina representam cerca de 2% da população”, afirmou o professor.

A população indígena chaqueña fica à margem dos avanços da Argentina em matéria de educação rural e o fato é reconhecido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

De acordo com o Centro Mandela, as comunidades indígenas sobrevivem a base de farinha e óleos e as dificuldades para a aprendizagem estão fortemente relacionadas à alimentação, além da precariedade do sistema sanitário.

“As estatísticas só se importam em dizer que estão escolarizadas”, criticou Núñez, que acredita que a administração pública é negligente.

Apesar de ter sido procurada diversas vezes pela Agência Efe, o representante do Ministério da Educação no Chaco não quis falar sobre os problemas expostos pelo professor e pela ONG.

No dia a dia dos indígenas chaqueños, a impossibilidade de escapar do fracasso se traduz em enorme perda de autoestima e de identidade étnica.

“Os povos originais, os poucos que ainda restam, são patrimônio cultural da humanidade. Antigamente, morriam com tiros de fuzil por defender seus territórios. Hoje, estão morrendo com a destruição de sua cultura e com a negligência”, lamentou Cano. EFE