Nem os mortos descansam na massificada Cingapura

  • Por Agencia EFE
  • 16/08/2015 06h58

Noel Caballero.

Cingapura, 16 ago (EFE).- Nem os mortos têm a paz assegurada em Cingapura, uma pequena nação que tem um dos maiores níveis em densidade de população do mundo e onde os cemitérios são realocados para deixar terreno ao turbilhão urbanístico.

O cemitério de Bukit Brown, situado junto a uma das poucas florestas que sobrevivem nesta cidade-estado que completou recentemente meio século de independência, ficou partido pela construção de uma estrada de oito pistas iniciada no ano passado.

Os corpos de cerca de quatro mil pessoas, dos mais de 100 mil que a necrópoles abriga, foram exumados pelas autoridades locais em 2013 a fim de limpar o terreno perante a chegada da maquinaria pesada.

“É uma área de terreno de grande extensão. Há muitos sepulcros sem registro, por isso que se desconhece o número exato de exumações”, afirmou Catherine Lim, voluntária de uma pequena comunidade cujo objetivo é preservar a herança histórica de Bukit Brown e revelá-lo ao mundo com visitas guiadas.

Este cemitério, onde se encontram sepulcros que datam do início do século XX e variedades de flora única na zona segundo conservacionistas, é um lugar de grande importância histórica que abriga uma das maiores concentrações de mausoléus da comunidade chinesa fora do gigante asiático.

“O principal problema é que com a construção, os familiares perdem a orientação e os pontos de referência dos túmulos de seus ancestrais”, comentou Lim.

Entre os planos do governo de Cingapura também estão projetos “não concretizados” para localizar uma zona residencial no terreno ocupado pelo cemitério.

Cingapura, país conhecido por seus bancos, alta tecnologia e luxuosos cassinos, se transformou na principal economia e centro de comércio do Sudeste Asiático.

Na diminuta nação, que tem a terceira maior densidade populacional do mundo com 7.669 habitantes por quilômetro quadrado, a escassez de terreno para a construção de casas encarece os preços de compra e aluguel.

O governo cingapuriano tenta solucionar este problema com o financiamento de torres de apartamentos de proteção oficial, onde vivem mais de 80% dos 5,5 milhões das pessoas que moram em Cingapura, segundo números do Departamento de Estatísticas.

A pressão pela carência de solo para o desenvolvimento urbano também ameaça outros cemitérios da cidade-estado, como o muçulmano de Jalan Kubor, o segundo mais antigo do país.

Desde a independência de Cingapura (1965), mais de 20 cemitérios foram destruídos pelas escavadoras com o objetivo de dar espaço a edifícios e infraestruturas.

Por enquanto a comunidade à qual pertence Lim conseguiu que Bukit Brown fosse incluído na listada ONG World Monuments Fund, dedicada à preservação de lugares de arquitetura histórica e patrimônio cultural de todo o mundo.

Pelo menos 30 pessoas enterradas em Bukit Brown têm ruas com seu nome na cidade-estado.

“Entendemos que são necessárias terras em prol do desenvolvimento, mas estes planos econômicos também devem estar em linha com a preservação da herança dos antepassados”, concluiu Lim. EFE

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