O discurso trumpista de Trump

  • Por Caio Blinder/Jovem Pan
  • 20/09/2017 10h33
A palavra-de-ordem de Trump é soberania, ou seja, eu estou na minha, fique na sua e no máximo podemos compartilhar interesses e não valores

Na torre de Babel que é a ONU, o homem da Trump Tower não decepcionou e fez em trumpês o discurso de debutante para uma audiência global na terça-feira. Claro que com Trump, é complicado diferenciar quando ele está falando para sua base em um comício no Alabama ou para o planeta.

O fato é que com Trump, os EUA, país que tanto fez para erguer torres de cooperação multilateral e pregação de valores universais, como democracia e direitos humanos, abdicam desta responsabilidade pela primeira vez desde o final da Segunda Guerra Mundial.

A palavra-de-ordem de Trump é soberania, ou seja, eu estou na minha, fique na sua e no máximo podemos compartilhar interesses e não valores. Ele usou o termo soberania 18 vezes no discurso. Bússola moral para Trump é o mero autointeresse, a dinâmica transacional entre os países. Nada mais. Vimos na ONU, bastião do multilateralismo global, o agressivo populismo nacionalista de Trump.

O presidente americano desce o cacete na Venezuela, Coreia do Norte e Irã por oprimirem seus povos, mas sua indignação com direitos humanos é seletiva. Na verdade, ele está lixando para a promoção de democracia. O seu negócio é um tal de “despertar das nações”

Até entendo uma parte da lógica de Trump em relação aos limites da soberania para alguns países. A Coreia do Norte não pode ter sua soberania respeitada. Seu regime “depravado” dirigido pelo “homem-foguete” (expressões de Trump) ameaça, não apenas sua população, mas a vizinhança e o mundo.

A questão é como conter esta ameaça. Os tuítes explosivos de Trump foram transportados para o cenário mais formal da assembleia geral da ONU quando ele ameaçou a Coreia do Norte com a “destruição total” caso seu programa nuclear não possa ser contido pela diplomacia.

Antes de mais nada, no mesmo discurso de 41 minutos, Trump tratou o acordo nuclear assinado por Irã, EUA no governo Obama e outros poderes mundiais como algo embaraçoso, para não dizer abominável. Pois bem, qual é o incentivo para a Coreia do Norte frear o seu programa nuclear se Trump ameaça perder as estribeiras com o Irã?

E existe o dilema em si envolvendo o jogo de Trump. Thomas Schellling, Prêmio Nobel de Economia, foi pioneiro da teoria de dissuasão nuclear, uma espécie de arte (não ciência) da manipulação do risco compartilhado de guerra.

Na essência, trata-se de criar a dose correta de medo ou de ameaça sem perder o controle da situação. Schelling vislumbrou um impasse nuclear como um par de alpinistas agarrados à beira do precipício. Cada um se aproxima cada vez mais da beirada e assim existe o medo de que um deles jogue ambos para baixo.

Na expressão de Schelling, os participantes deste jogo competem para parecerem “mais irracionais, impetuosos e teimosos”. O drama supremo é se os jogadores de fato são irracionais, impetuosos e teimosos.

Hoje, um deles tem o ego da altura de uma torre. O outro já é conhecido como “homem-foguete”, chefão de um país ameaçado retoricamente de aniquilação. Em qual dos dois você confia menos à beira do precipício?