Tensões entre China e Índia nos Himalaias são um novo motivo de inquietação geopolítica

  • Por Caio Blinder/Jovem Pan
  • 22/08/2017 11h18 - Atualizado em 22/08/2017 11h18
O confronto frutifica há meses sobre um remoto ponto fronteiriço nos Himalaias

Desgraça pouca é bobagem: medo de um conflito nuclear com a Coreia do Norte,  um incremento militar americano no Afeganistão, conforme anunciou segunda-feira à noite o presidente Trump, sem dar números, e o terror sempre à solta (pedestre ou motorizado). Por que não ir aos Himalaias? O perigo também mora por lá e não apenas para os alpinistas.

A escalada, sorry pelo trocadilho, de tensões entre China e Índia nos Himalaias é um novo motivo de inquietação geopolítica. E estamos falando dos dois países mais populosos do mundo, nucleares (com um total combinado de 380 armas), com ambições competitivas de darem as cartas no planeta no século 21 e tomados por paixões nacionalistas, turbinadas por seus dirigentes.

O confronto frutifica há meses sobre um remoto ponto fronteiriço nos Himalaias, deflagrado pela lance chinês de construir uma estrada em território reivindicado pelo Butão, aquele paiseco metido a utopia da felicidade com 800 mil habitantes, íntimo aliado da índia e que não mantém relações diplomáticas com a China.

Para contrastar, juntas a India e a China têm 2,6 bilhões de habitantes. Há tradicionais disputas territoriais entre os dois gigantes asiáticos ao longo da fronteira de 3.500 quilômetros. Uma guerra, vencida pela China, foi travada em 1962, no mesmo ano da crise dos mísseis entre EUA e a então União Soviética no auge da Guerra Fria.

Parece loucura os dois gigantes irem à guerra por um Butão ou um botão, mas erros de cálculo sempre são possíveis nestas horas. E o atual confronto é visto como o mais grave em 30 anos. O presidente chinês Xi Jinping precisa projetar cada vez mais a aura de firme ditador e o primeiro-ministro indiano Narendra Modi é arauto do nacionalismo hindu.

A combinação dos dois é explosiva. E é preciso levar em conta, como deixou claro Trump no discurso de segunda-feira à noite, que ele considera a Índia um importante aliado dos EUA.

Na imprensa dos dois países, a batalha verbal está a todo vapor, especialmente na China (onde a mídia obviamente está a serviço do estado). Um consolo não lá muito reconfortante é que os dois países subscrevem a doutrina nuclear de “não uso em primeiro lugar”.

Tudo é seríssimo, mas é preciso se controlar para não rir, pois em disputa está, não apenas este naco de fronteira entre China e Butão, mas uma estreita e estratégica faixa na India conhecida como “pescoço da galinha”, conectando o grosso do país a seu remoto leste.

Melhor, portanto, ficar de olho nesta briga de galos asiáticos.