Debate: Sem Bolsonaro, candidatos armam dobradinhas para tentar chegar ao 2º turno

  • Por Jovem Pan
  • 05/10/2018 01h08
WILTON JUNIOR/ESTADÃO CONTEÚDOQuase todos os candidatos criticaram a ausência de Jair Bolsonaro, que seguiu recomendação médica e não foi ao debate

O último encontro entre os candidatos à Presidência da República antes das eleições foi marcado pelas famosas dobradinhas e ataques ao ausente Jair Bolsonaro (PSL).

Líder nas pesquisas, Bolsonaro seguiu recomendação médica e não compareceu ao debate. O candidato, no entanto, concedeu uma entrevista à rede Record, que foi exibida no mesmo horário do embate da Globo.  

Um dos primeiros a criticar Bolsonaro foi o petista Fernando Haddad. Ele aproveitou uma pergunta de Guilherme Boulos (PSOL) para fazer uma dobradinha “contra o ódio”. Haddad relacionou Bolsonaro ao presidente Michel Temer (MDB) e disse que eles destroem direitos da população. Boulos fez coro e, com voz embargada, fez um discurso contra as “ameaças à democracia”.

Outra  “dobradinha” aconteceu entre Ciro Gomes (PDT) e Marina Silva (Rede). Ambos criticaram a polarização entre Bolsonaro e Fernando Haddad, sugerindo um novo caminho. “Não acredito que, a permanecer essa polarização, se tenha possibilidade de governar o Brasil”, afirmou Marina. Ciro corroborou: “As palavras de Marina são sábias e o brasileiro que está ouvindo que ainda não decidiu seu voto, deve ouvi-las. O que está em jogo aqui não é paixão partidária nem o ódio, mas milhões de desempregados”. 

Mais a frente no encontro, Haddad e Ciro aproveitaram uma pergunta sobre meio ambiente para fazer uma “parceria” e tecer críticas a Bolsonaro.  O PTista comentava sobre desenvolvimento sustentável ao dizer que o capitão reformado do Exército é apoiado por “ruralistas arcaicos”, que estão querendo retroceder com o Brasil.  

Ciro, além de criticar o candidato do PSL, utilizou a deixa para criticar a polarização que o PT ajudou a introduzir no País. Para ele, o partido perdeu a condição política de reunir a população brasileira. “Boas ideias necessitam de ambiente político para enfrentar o fascismo e a radicalização estúpida que Bolsonaro representa”, afirmou.

Em outro momento, Alvaro Dias (Podemos) e Geraldo Alckmin (PSDB) também se juntaram para criticar o PT e o ausente Jair Bolsonaro. O senador, que fez a pergunta, entoou novamente o bordão de que “na Olimpíada da mentira, o PT é medalha de ouro” e questionou o tucano sobre como “acabar com isso que está aí”.

Em resposta, o ex-governador de São Paulo disse que o Brasil já passou por uma experiência de governo petista, com “13 milhões de desempregados, criminalidade na altura e contas públicas com problema”. Por outro lado, Alckmin disse que o caminho não é o radicalismo de direita, que não tem “sensibilidade social”, e elencou propostas que partiram da campanha do PSL, como não direcionar mais recursos para a saúde, acabar com o 13º e recriar a CPMF. “O Brasil já tem problema demais. Não podemos ter presidente para ser mais um problema”, disse o tucano. “O Brasil só vai mudar com reformas, senão vai ser o mesmo marasmo”.

Ataques ao PT

Apesar da união contra o candidato do PSL, Alckmin, que ainda tenta uma vaga no segundo turno, aproveitou o encontro para criticar o PT de Fernando Haddad, o segundo colocado nas intenções de voto. O tucano criticou os governos PTistas, dizendo que eles foram os responsáveis pela “grande crise” em que o País se encontra.  “Quero saber se o candidato vai manter o modo de governar do PT”, questionou o tucano a Haddad.

Em sua resposta, o PTista lembrou que o governo Fernando Henrique Cardoso aumentou a carga tributária e teve, ao mesmo tempo, alta da relação dívida/PIB. Para Haddad, os responsáveis pela crise foram o PSDB e a oposição ao segundo governo de Dilma Rousseff, que agiram para aprovar pautas bombas e acelerar o processo de impeachment. “Isso que levou país a crise, não política responsável da Dilma”, disse o petista, lembrando que o PSDB teve quatro ministros no governo do emedebista. “O PT terceiriza a responsabilidade. O PSDB está fora do governo há 16 anos, o que FHC tem a ver com isso?”, retrucou Alckmin. “Quem quebrou o Brasil foi o PT e Dilma, quando disse que ia fazer o diabo para ganhar eleição. Nem PT nem Bolsonaro vão tirar o Brasil da crise”, defendeu.

Haddad x Alvaro

O momento de maior tensão do debate aconteceu entre Alvaro Dias (Podemos) e Haddad.  O ex-governador do Paraná brincou que quer entregar, por meio do ex-prefeito, uma pergunta ao “verdadeiro candidato do PT”, o ex-presidente Lula. 

Em sua resposta, Haddad pediu “mais compostura” a Dias, que até então tinha extrapolado os tempos destinados a suas falas no programa, e fez um discurso voltado à economia. O petista disse que pretende retomar o crescimento econômico diminuindo o fardo sobre os mais pobres e incentivando o consumo. 

No último bloco, Haddad e Dias voltaram a se enfrentar, desta vez falando sobre corrupção. O candidato do Podemos afirmou que há uma conspiração contra a Operação Lava-Jato, enquanto o petista defendeu que a Polícia Federal e o combate à corrupção foram reforçados durante os governos Lula e Dilma, mas que a operação não pode ser partidarizada.

Meirelles predileto

Mesmo com um tom mais agressivo do que nos debates anteriores, Haddad buscou ao longo do debate da TV Globo endereçar as perguntas aos também esquerdistas Guilherme Boulos (PSOL) e Ciro Gomes (PDT).

Com Boulos, foram ressaltadas as políticas sociais dos governos PTistas e os dois discorreram da necessidade de melhoria da educação até políticas de moradia. Com Ciro, por sua vez, Haddad aproveitou para criticar Bolsonaro e as propostas do governo de Michel Temer, como as reformas trabalhista e da Previdência.

Ciro e Boulos ‘chamaram o Meirelles’ muitas vezes durante o debate. O PDTista tratou com o ex-ministro de Temer temas como a Emenda 95 e educação. Boulos, no entanto, foi na contramão e priorizou os ataques.  O Psolista fez, mais uma vez, a comparação de que irá “taxar” o Meirelles.

Discurso de Boulos

Com a voz embargada, Guilherme Boulos usou uma de suas respostas a Fernando Haddad para fazer um discurso contra a ditadura. “Não dá para fingir que está tudo bem. Esse país saiu de uma ditadura há 30 anos, muita gente morreu, muita mãe não conseguiu enterrar seus filhos”, disse. “Faz 30 anos, mas acho que a gente nunca esteve tão perto do que aconteceu naquele momento”, continuou.

O candidato do PSOL lembrou dos brasileiros que lutaram pela democracia. “Se a gente pode estar aqui discutindo o futuro do Brasil, é porque teve gente que derramou sangue para conseguir isso. Se você vai poder votar no domingo, é porque teve gente que deu a vida para isso”, afirmou. “Sempre começa assim, com arma, com tudo se resolve na porrada, com a vida do ser humano não vale nada. Acho que a gente tem que dar um grito: ditadura nunca mais”, finalizou o presidenciável, que foi aplaudido pela plateia e saudado por Haddad.

Escorregadas do Bonner

O debate também foi marcado por trapalhadas de William Bonner. Em alguns momentos, o apresentador esqueceu de sortear o tema das perguntas que os candidatos deveriam fazer aos outros. Em uma das vezes em que isso aconteceu, Marina Silva ironizou o âncora do Jornal Nacional. “Jornalistas”, disse a candidata. “Eu assumo o erro, não são todos os jornalistas”, respondeu Bonner.

Em outro momento, o mediador esqueceu de sortear o tema para Ciro Gomes. “Acabei de merecer ganhar seu voto”, disse o candidato do PDT ao lembrar Bonner de selecionar o assunto. “Você foi mais rápido que o ponto eletrônico”, respondeu o jornalista. “É assim que vou governar o Brasil”, emendou o candidato.