Em “Malévola”, vilã clássica da Disney ganha coração amolecido

  • Por Ítalo Fassin
  • 28/05/2014 18h03
Disney's MALEFICENT Maleficent (Angelina Jolie) Ph: Film Frame ©Disney Enterprises, Inc. All Rights Reserved.. Divulgação Malévola

Estreia hoje (29) nos cinemas a nova animação da Disney, “Malévola”, versão de “A Bela Adormecida” narrado pela vilã, interpretada por Angelina Jolie. Na história, há um conflito entre o reino dos homens e o reino dos Moors, criaturas mágicas da floresta lideradas por Malévola.

Os homens querem, a todo custo, invadir o território dos Moors para extrair suas riquezas. Quando Malévola se vê traída pela ambição e sede de poder do homem por quem se apaixonou, o rei Stefan (Sharlto Copley), ela decide jogar uma maldição na filha do rei, a princesa Aurora (Elle Fanning). A maldição faria com que, quando completasse 16 anos, Aurora furasse o dedo no fuso de uma roca de fiar e caísse em um sono profundo para sempre.

O filme constrói uma personagem que combinaria mais com o nome “Benévola” do que “Malévola”. E isso não é um ponto fraco, muito pelo contrário. Estreando como diretor, Robert Stromberg apresenta uma proposta diferente da história original.

Na primeira versão, a bruxa do mal se transforma em um dragão e morre com o golpe de espada de um príncipe. Na nova proposta, a escolha do diretor pode ser considerada até ousada, levando em consideração que o conto tem um público de fãs vasto e fiel, a postos para estrangularem Stromberg caso fiquem insatisfeitos. Mas não cabe dar spoiler aqui. O fato é que, antes de ser vilã, Malévola é humana (uma criatura, sim, mas como criatura racional, tem o lado humano). Para Stromberg, o risco estava lançado e o que sobrou para o diretor foi explorar o rumo que escolheu para a obra, revelando as origens do mal que se apoderou da protagonista. E, quando a origem do mal é exposta dessa forma no cinema, é sinal de que um lado bom pode despertar, desde que o vilão conviva com quem considerava, até então, inimigo.

Talvez o ponto de vista da Malévola seja o do próprio Stromberg, de agora ou de quando era um leitor com poucos anos de idade. O mesmo aconteceu com o filme “Noé”, em que o diretor Darren Aronofsky criou sua própria versão do personagem bíblico: um Noé com o psicológico mais vulnerável.

Em entrevistas anteriores para publicações americanas, Angelina Jolie afirmou que pensou com cautela antes de aceitar o papel. Além da ira dos fãs caso a atriz desapontasse na interpretação, ela enfrentaria a própria aversão, pois, segundo Jolie, ela sempre foi fã da história desde criança. Quanto a isso, ela pode ficar tranquila. Quanto à adaptação do texto, também. O que se observa é uma inversão de papéis e o inimigo principal da ficção não é quem imaginávamos a princípio.

Além da clássica vilã da Disney, da princesa Aurora e do rei Stefan, o roteiro conta a primeira participação de Vivienne Jolie Pitt, filha de 5 anos de Brad e Angelina, que no filme está no papel de Aurora quando pequena. A atuação de Vivienne facilitou produzir as cenas de uma criança que não se assustasse quando olhasse a atriz com maquiagem sombria e caracterizada com seus longos chifres.

A personagem clássica da Disney, portanto, é quem está com lápis e papel na mão para criar sua própria versão dos fatos e apresentar sua rendição e interesse pelo núcleo que a havia desprezado. E tal mudança é bem-vinda, já que geralmente só os mocinhos julgam sem culpa. Agora é a vez da vilã fazer seu autojulgamento. Durante todo o filme, nenhum personagem prometeu o que não podia cumprir. Com exceção de um, e não é Malévola.