Escritor Luiz Alberto Mendes morre aos 68 anos

  • Por Jovem Pan
  • 09/04/2020 14h43
Reprodução/InstagramLuiz Alberto Mendes ficou conhecido pelo livro 'Memórias de um Sobrevivente'

O escritor paulistano Luiz Alberto Mendes morreu nesta quarta-feira (8), em decorrência de um aneurisma, aos 68 anos. Ele ficou conhecido quando publicou, em 2001, o livro “Memórias de um Sobrevivente”, pela Companhia das Letras, o primeiro de uma trilogia sobre a vida na prisão.

Mendes nasceu em 1952, no bairro paulistano de Vila Maria. Autodidata, passou boa parte da vida em reformatórios e penitenciárias do estado de São Paulo, após ser condenado a mais de cem anos de prisão por diversos crimes.

Foi na prisão – durante outra epidemia, no final dos anos 1980 – em que conheceu a enfermeira Michele Caolha, portadora do HIV, que foi quem lhe apresentou os livros. Em pouco tempo, passou a ler tudo que conseguiu, dos clássicos aos modernos, e começou a dar aulas na prisão, bem como a trabalhar no setor jurídico, em um grupo espírita, nos Correios, e até a produzir bichinhos de pelúcia.

Auxiliado pelo escritor e roteirista Fernando Bonassi (de “Estação Carandiru”), que levou e recomendou o livro à editora, Mendes lançou “Memórias de um Sobrevivente” ainda preso, em 2001, e a obra foi recebida com espanto, pelo seu retrato particular não só da vida na cadeia, mas das forças externas e internas que fizeram Mendes se transformar em quem ele era.

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Lamentamos o falecimento do autor Luiz Alberto Mendes. Nascido em 1952, foi preso aos 19 anos e, por grande parte da vida, cumpriu pena por homicídio e outros crimes. Foi no final da década de 80 que, ajudando um grupo de pessoas presas com Aids, conheceu a enfermeira Michele, que o aproximou do mundo dos livros. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ Enquanto esteve preso, trabalhou no setor jurídico, em um grupo espírita, nos Correios, foi professor e até produziu bichinhos de pelúcia. Encarcerado, escreveu “Memórias de um sobrevivente”, publicado em 2001 pela Companhia das Letras, o primeiro de uma trilogia sobre a vida durante e após o cárcere. Em seu testemunho, busca compreender a violência, o encarceramento e a dor. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ Em liberdade, criou um programa de recuperação social e promoveu oficinas de leitura e escrita em penitenciárias e na periferia de São Paulo.

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“Achava que liberdade era ter dinheiro no bolso. A minha liberdade estava no bolso. Hoje vejo que existem liberdades maiores do que a de ir e vir”, disse Mendes em 2005 ao Jornal da Tarde. “A primeira coisa pior de se estar preso é ficar longe de quem você ama. A segunda é ter de conviver com os presos. Todos tristes, angustiados, sofrendo como você. É duro.”

Ainda em 2005, ele lançou “Às Cegas”, e em 2015, “Confissões de um Homem Livre”, também pela Companhia das Letras, sobre seus últimos anos no cárcere, entre outros livros. Ele também era colunista da revista Trip e durante seu período em liberdade, depois de 2004, seguiu escrevendo, dando aulas e palestras e ministrando cursos e oficinas para presidiários.

Seu projeto mais recente foi o filme “Sete Idas Para o Inferno” (escrito com José Alvarenga Júnior, sobre um presidiário que sai da prisão e não encontra mais sua vida antiga), que no início de 2019 estava em fase de captação de recursos.

*Com Estadão Conteúdo