Ligia Amadio, maestrina brasileira, triunfa em um mundo masculino

  • Por Agencia EFE
  • 06/06/2014 17h38

Bogotá, 6 jun (EFE).- A brasileira Ligia Amadio, engenheira industrial e atual diretora titular da Orquestra Filarmônica de Bogotá (OFB), transita em um mundo ainda predominante masculino, mas não se sente uma intrusa nem tem medo de carregar a batuta.

“A desigualdade não foi superada ainda, fica muito por percorrer”, afirma ela em entrevista à Agência Efe algumas horas antes de comandar nesta sexta-feira um concerto da OFB com um dos melhores violinistas do mundo, o russo Shlomo Mintz, como solista, no Teatro Mayor Julio Mario Santo Domingo de Bogotá.

No fim da semana passada teve como solistas o duo de pianistas BdB, formado pelas espanholas María José de Bustos e María José Barandiaran, e o protagonismo destas três mulheres no palco não passou despercebido do público do Auditório Leon de Greiff. Essa paulistana dá tudo de si no palco, e surpreende ao público não só por suas qualidades como diretora, mas por sua grande expressividade, tanto corporal quanto verbal.

María José de Bustos disse à Agência Efe que foi a primeira vez em sua carreira que se encontrou com “esta experiência triplamente feminina” e que as três decidiram de comum acordo que não será a última vez, pois “a química fez seu efeito e o corrente musical fluiu”.

As três concordam em que a misoginia que persiste no ambiente musical provém de alguns jornais, alguns críticos e certas administrações, mas não da comunidade dos músicos ou do público.

“Em certas ocasiões, a imagem está acima da qualificação e da capacidade profissional”, diz Ligia, que o considera “intolerável sob qualquer ponto de vista”.

Ela lembra que até 1982 não havia uma só mulher entre os músicos da prestigiada Orquestra Filarmônica de Berlim e recorda o escândalo ocorrido em 1983 quando seu diretor, Herbert Von Karajan, se deparou com a recusa dos músicos em tocar com a clarinetista Sabine Meyer, que tinha então 23 anos e à qual tinha proposta para um posto temporário.

Ligia começou a estudar piano aos cinco anos de idade, mas não tinha intenção de ser música. Estudou e concluiu o curso Engenharia antes de ingressar no Conservatório de Música da Universidade de São Paulo (USP), onde optou pelo ramo da orquestra.

“Eu tinha 22 anos e já sabia que não seria uma grande pianista, por isso não escolhi ser instrumentista. A composição (outro ramo desta carreira) é para uns poucos escolhidos, são gênios. Eu era uma pessoa muito normal e, ao mesmo tempo, sabia que tinha personalidade para dirigir uma orquestra”, afirmou.

Embora admita ser “mandona”, esclarece que só isso em uma orquestra não basta. É preciso ser líder, porque “os diretores que apenas mandam são temidos, mas não muito respeitados”.

Ligia, a primeira mulher a ganhar o concurso de direção orquestral de Tóquio, em 1997, também foi diretora titular da Orquestra Sinfônica da Universidade de São Paulo (OSUSP) e da Orquestra Filarmónica de Mendoza (Argentina), além de diretora convidada de muitas orquestras de outros países.

Em seu mundo não há muitas mulheres, mas, curiosamente em seu curso no conservatório, a turma era formada por sete mulheres e três homens. Um de seus professores dizia que isso era “algo diferente que estava acontecendo”. Daquele curso, apenas cinco alunos se formaram. Todos eram mulheres.

“A direção é interpretação, embora mais ampla. Depende dos corpos e da cabeça de outras pessoas. A orquestra é nosso instrumento, um instrumento muito mais complexo”, explica.

Ligia chegou à OFB em fevereiro deste ano, e foi recebida com “muito amor e respeito”, embora afirme que “a relação se desenvolva com o tempo”.

“É uma orquestra de muitas qualidades”, que acaba de inaugurar um lugar próprio para ensaiar, destaca.

Algo não muito habitual entre os diretores de orquestra, no sábado passado, antes de dirigir a Sinfonia No.1 em Mi menor Op. 39 de Jean Sibelius, Ligia contou ao público sobre as distantes e frias terras onde aquela obra havia sido composta e as circunstâncias em que a Finlândia atravessava então, invadida pelos russos.

“Sempre faço isso, se temos o contexto histórico ou do compositor. É outra maneira de entrar na música”, ressaltou. EFE

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