Mangueira é campeã do carnaval do Rio de Janeiro; escola de samba homenageou Marielle Franco

  • Por Jovem Pan
  • 06/03/2019 18h07 - Atualizado em 06/03/2019 18h10
Wilton Junior/Estadão ConteúdoAgremiação exibiu imagens forte ao tratar heróis históricos como assassinos

A Estação Primeira de Mangueira é a campeã do carnaval do Rio de Janeiro neste ano. A escola de samba desfilou o enredo “História para ninar gente grande” e fez homenagem à Marielle Franco, vereadora do PSOL assassinada em março do ano passado.

A promessa da agremiação, cumprida com grandioso espetáculo no sambódromo, era fazer uma narrativa de “páginas ausentes” da história do Brasil, repensando narrativas oficiais que foram ensinadas ao longo de gerações para os brasileiros.

Na apuração desta quarta-feira (6), a Mangueira assumiu a liderança isolada da disputa já no terceiro julgador do segundo quesito. Até então, ela estava empatada com a Viradouro, que perdeu um décimo do jurado que desempatou esse momento.

A agremiação perdeu apenas três décimos em três quesitos diferentes: 9,9 em alegorias e adereços, 9,9 em enredo e 9,9 em fantasia. Essas três avaliações, feitas por três julgadores diferentes, foram descartadas, prevalecendo as demais notas 10.

A Mangueira, segunda maior campeã do carnaval carioca (agora com 20 troféus) foi a que mais emocionou a arquibancada na Avenida Marquês de Sapucaí, não apenas pela homenagem que fez, mas pela força dos versos cantados no samba-enredo.

Marielle Franco foi homenageada pela Mangueira no desfile e no samba

Sexta escola a se apresentar na segunda noite de desfiles, já ao amanhecer de terça-feira (5) a verde-e-rosa teve fantasias detalhadamente trabalhadas e carros alegóricos luxuosos. No final, uma bandeira do Brasil fez a torcida vibrar de forma não vista em outros desfiles.

Contando uma “nova” história do Brasil, a Mangueira reverenciou heróis populares em detrimento de personalidades que constam dos registros históricos. Dom Pedro I foi retratado como presidiário; índios e negros líderes de revoltas contra a escravidão foram cultuados.

Entre os destaques da apresentação está uma alegoria que fez releitura do Monumento às Bandeiras, que fica em São Paulo. A escultura apareceu manchada de sangue, em referência à forma violenta com a qual os bandeirantes exploraram o território brasileiro.

Ouça o samba-enredo da Mangueira:

Confira a letra do samba-enredo da Mangueira:

Mangueira, tira a poeira dos porões
Ô, abre alas pros teus heróis de barracões
Dos Brasis que se faz um país de Lecis, jamelões
São verde e rosa, as multidões

Brasil, meu nego
Deixa eu te contar
A história que a história não conta
O avesso do mesmo lugar
Na luta é que a gente se encontra

Brasil, meu dengo
A Mangueira chegou
Com versos que o livro apagou
Desde 1500 tem mais invasão do que descobrimento
Tem sangue retinto pisado
Atrás do herói emoldurado
Mulheres, tamoios, mulatos
Eu quero um país que não está no retrato

Brasil, o teu nome é Dandara
E a tua cara é de cariri
Não veio do céu
Nem das mãos de Isabel
A liberdade é um dragão no mar de Aracati

Salve os caboclos de julho
Quem foi de aço nos anos de chumbo
Brasil, chegou a vez
De ouvir as Marias, Mahins, Marielles, malês