Marca de roupa lança propaganda em prol de casais gays na Índia

  • Por Agencia EFE
  • 08/07/2015 06h29

Moncho Torres.

Nova Délhi, 8 jul (EFE).- O anúncio feito para a televisão de uma marca de roupa indiana, no qual uma menina vai apresentar oficialmente sua namorada aos pais, representa um forte respaldo às lésbicas na Índia, onde as relações homossexuais são penalizadas.

O vídeo “The Visit” (A visita), da marca Anouk, da rede Myntra, viralizou nas redes sociais do gigante asiático, e no YouTube já passa de dois milhões de visualizações um mês depois do lançamento.

“Isso foi lindo. E acredite em mim quando eu digo isso, a Índia está mudando para melhor. Quem dera eu tivesse esperado para me assumir e meus pais teriam visto isto como normal, que amor é amor. Eu adorei este anúncio. Obrigada de coração. Fez eu me sentir querida e aceita, ao invés de suja e anormal”, escreveu usuária Izzy J. em um comentário no canal online.

No comercial, de 3 minutos e 21 segundos ao estilo Bollywood, duas jovens ansiosas conversam entre uma delicada troca de carinhos, enquanto esperam os pais de uma delas.

“Tem certeza disto?”, pergunta insegura uma, ao que a outra responde: “Tenho certeza sobre nós e não quero mais esconder”.

Para a sociedade indiana, eminentemente conservadora e muito religiosa, este anúncio representa uma antecipação significativa, embora alguns críticos da imprensa tenham dito que seu alcance se limite ao público urbano, que costuma ser mais progressista.

“Pode ser que não reflita a postura da maioria dos indianos com relação aos gays, mas pelo menos mostra que alguns setores com grande influência estão dispostos a uma mudança de mentalidade e isso é bem-vindo”, escreveu a editora Sharon Fernandes, em um artigo no jornal “Times of India”.

Avishek Ghosh, um dos donos da produtora que está por trás do anúncio, a Hectic Content, explicou ao mesmo jornal que eles tentaram evitar os “estereótipos relacionados aos homossexuais” para, assim, mostrar um “casal como outro qualquer”.

No mesmo sentido, Shobhna S.Kumar, fundadora da “Queer Ink” (“Tinta Gay”), a única editora indiana voltada à literatura LGTB, disse à Agência Efe que o anúncio mostra a realidade das relações dos casais gays, onde a “vulnerabilidade as torna paradoxalmente mais fortes”.

Segundo Shobhna, o anúncio é o reflexo da mudança que está acontecendo entre as “mulheres que mostram sua orientação sexual de maneira aberta”, embora na sociedade indiana a mulher ainda careça de direitos e “seja vista como propriedade do homem”.

Apesar da grande repercussão que a campanha da Anouk gerou, o anúncio não é o primeiro na Índia que leva a temática das lésbicas à televisão.

A companhia especializada em acessórios The Fastrack lançou em 2013 de um modo mais sofisticado e transgressor a peça “The Closet”. Um vídeo de 23 segundos mostrava a relação casual de duas meninas dentro de um guarda-roupa rosa com o lema: “Saia do armário. Mova-se”, ao som de Daft Punk.

No cinema, a Índia também costuma estar um passo a frente neste quesito. Em 1996, o filme “Fogo e Desejo”, da diretora Deepa Mehta, gerou burburinho no país ao contar a história de um amor lésbico ambientada na Délhi do final do século XX.

O filme teve que ser retirado dos cinemas por pressão e ataques de grupos de hindus extremistas e muitos anos depois algumas salas ainda guardam mostras da destruição.

Esse tumulto não impediu a maior conquista até agora da comunidade LGTB na Índia: a declaração de inconstitucionalidade do artigo 377 do Código Civil indiano, em 2009, uma antiga lei britânica que prevê até dez anos de prisão para quem mantiver relações “contra a natureza”. No entanto, quatro anos depois, ele seria restaurado pela Corte Suprema.

Segundo A.J. Hariharan, criador da Organização Bem-Estar Comunidade Indiana (ICWO), um serviço de ajuda via telefone no estado de Tamil Nadu, esses anos de liberdade não se traduziram em menos discriminação, embora ele esteja confiante, pois agora “mais gente fala disso”.

Uma das vozes que falam disso é a do anúncio da Anouk, no qual no final da história mostra uma das meninas falando ao celular: “Chegaram? Vamos descer agora”. EFE