Moraes Moreira fez cordel sobre quarentena em último post; leia

‘Assombra-me a pandemia que agora domina o mundo’, diz um dos versos postados em 18 de março

  • Por Jovem Pan
  • 13/04/2020 14h54 - Atualizado em 13/04/2020 14h56
Reprodução/FacebookMoraes Moreira

O cantor Moraes Moreira, que morreu nesta segunda-feira (13) aos 72 anos, fez um cordel, série de rimas popular no Nordeste, sobre o período de quarentena e a pandemia de coronavírus em seu último post no Instagram.

“Eu temo o coronavírus, e zelo por minha vida, mas tenho medo de tiros, também de bala perdida”, diz um dos versos.

Moreira morreu de infarto na madrugada desta segunda. Ele ficou famoso nos anos 1970 ao integrar o grupo Novos Baianos ao lado de Pepeu Gomes, Baby do Brasil e Paulinho Boca de Cantor e Luiz Galvão. A partir de 1979, Moreira seguiu carreira solo.

Nos versos de sua última interação nas redes sociais, o músico falava sobre os medos e pedidos diante da “pandemia que domina o mundo”. No post, Moreira também contava que estava em quarentena em casa, no bairro da Gávea, no Rio de Janeiro. “Este Cordel nasceu na madrugada do dia 17, envio para apreciação de vocês. Boa sorte”.

O velório do músico será fechado para evitar aglomerações, informou a assessoria de imprensa.

Leia o cordel completo:

Quarentena (Moraes Moreira)

Eu temo o coronavirus
E zelo por minha vida
Mas tenho medo de tiros
Também de bala perdida,
A nossa fé é vacina
O professor que me ensina
Será minha própria lida

Assombra-me a pandemia
Que agora domina o mundo
Mas tenho uma garantia
Não sou nenhum vagabundo,
Porque todo cidadão
Merece mas atenção
O sentimento é profundo

Eu não queria essa praga
Que não é mais do Egito
Não quero que ela traga
O mal que sempre eu evito,
Os males não são eternos
Pois os recursos modernos
Estão aí, acredito

De quem será esse lucro
Ou mesmo a teoria?
Detesto falar de estrupo
Eu gosto é de poesia,
Mas creio na consciência
E digo não a todo dia

Eu tenho medo do excesso
Que seja em qualquer sentido
Mas também do retrocesso
Que por aí escondido,
As vezes é o que notamos
Passar o que já passamos
Jamais será esquecido

Até aceito a polícia
Mas quando muda de letra
E se transforma em milícia
Odeio essa mutreta,
Pra combater o que alarma
Só tenho mesmo uma arma
Que é a minha caneta

Com tanta coisa inda cismo….
Estão na ordem do dia
Eu digo não ao machismo
Também a misoginia,
Tem outros que eu não aceito
É o tal do preconceito
E as sombras da hipocrisia

As coisas já forem postas
Mas prevalecem os relés
Queremos sim ter respostas
Sobre as nossas Marielles,
Em meio a um mundo efêmero
Não é só questão de gênero
Nem de homens ou mulheres

O que vale é o ser humano
E sua dignidade
Vivemos num mundo insano
Queremos mais liberdade,
Pra que tudo isso mude
Certeza, ninguém se ilude
Não tem tempo,nem.idade