Ana Paula desabafa, detona legado pós-Mundial e teme pelo handebol brasileiro

  • Por Jovem Pan
  • 09/05/2016 18h18

Ana Paula foi campeã mundial em 2013 e disse que o handebol no Brasil involuiu após a conquista

Ana Paula foi campeã mundial em 2013 e disse que o handebol no Brasil involuiu após a conquista

Campeã mundial com a Seleção Brasileira feminina de handebol em 2013, Ana Paula desabafou e negou ter observado algum legado da histórica, e inédita, conquista no esporte nacional. Em entrevista exclusiva a Fredy Junior e Guilherme Campos para o Domingo Esporte, da Rádio Jovem Pan, a central titular do Brasil até ironizou as previsões feitas há alguns anos, quando o handebol verde-amarelo ainda lutava para chegar ao menos à semifinal de um Mundial. 

Eu sempre ouvia as pessoas dizerem que, no dia em que o handebol brasileiro tivesse um resultado expressivo, as coisas melhorariam no País. E isto não aconteceu. Foi uma decepção muito grande. Eu acredito que ganhar um Mundial seja um resultado muito expressivo, não? E, para mim, nada mudou no handebol do Brasil. Pelo contrário: só vem piorando a cada ano”, criticou a jogadora. 

Ana Paula, que começou a jogar handebol em Guarulhos e atua na Europa desde 2007, até usou um exemplo recente para explicar a sua revolta. “A maioria das equipes não tem patrocínio. Outro dia, mesmo, eu estava conversando com a técnica do Guarulhos, que disse que a equipe não iria viajar para participar de uma competição por não ter dinheiro para pagar a passagem das atletas. Não tem interesse dos órgãos públicos, particulares, das empresas… Na minha opinião, o handebol brasileiro não evoluiu nada depois do Mundial”, reclamou.

E a central, que passou por Espanha e Áustria até chegar à Romênia, onde joga atualmente, não parou por aí. Para Ana Paula, o fato de o handebol brasileiro não ser forte e nem rentável faz com que as atletas tenham que se sacrificar para estar em quadra. “Não tem como um atleta se dedicar 100% ao esporte tendo que trabalhar ou fazer outra coisa paralela. Essa é a maior diferença para a gente aqui, na Europa. A gente se dedica 100% a treinar e jogar. Não tem que se preocupar em trabalhar para complementar renda ou algo do tipo, como as meninas do Brasil passam aí”, disse. 

Tudo isto, de acordo com Ana Paula, cria outro tipo de dificuldade: a vontade das jogadoras em começar e continuar praticando handebol no País pentacampeão mundial de futebol. “Hoje, o sonho da maioria das atletas que joga no Brasil é ir para a Europa. Porque ela não vê perspectivas dentro do País. Não tem competição, apoio... Então, se ela permanecer no Brasil, sabe que não vai conseguir evoluir, melhorar e nem chegar à Seleção Brasileira, justificou. 

Será que todos estes problemas fazem com que Ana Paula se preocupe a ponto de temer pelo futuro da Seleção Brasileira feminina? É bom lembrar que, depois de muitos anos batendo na trave, ela fez história há três anos e foi campeão mundial na Sérvia. “Com certeza”, respondeu. “O handebol no Brasil não está evoluindo… Então, quando a gente parar, quem será que vai chegar? Qual base vai vir para substituir a gente? É uma situação muito complicada. Enquanto a visibilidade e o apoio não aumentarem, a gente sempre vai temer. Daqui a dois, três anos, a Ana Paula não está mais. Daqui a quatro, cinco anos, a Duda não está mais, assim como outras meninas… Quem vai entrar no lugar? A gente não sabe!”, reclamou. 

Há quem diga que a crise econômica pela qual o Brasil passa seja a culpada pela falta de apoio ao handebol nacional após o título mundial. Para Ana Paula, porém, esta tese é furada. “O País está em crise, é verdade, mas acho que esta crise está começando a virar desculpa para tudo, também. Tudo agora é por causa da crise… Há seis, sete anos, o Brasil estava em crise? Porque eu estava no País e era a mesma coisa“, decretou, bastante cética com relação a uma possível melhora no esporte nacional.