Árbitro Mario Yamasaki detona doping e admite declínio de brasileiros no UFC

  • Por Bruno Bataglin/Jovem Pan
  • 12/02/2015 18h28

Mario YamasakiMario Yamasaki

Mario Yamasaki. Mesmo quem não gosta das chamadas Artes Marciais Mistas (MMA, em inglês) já deve ter ouvido falar neste nome. Único árbitro brasileiro a fazer parte do Ultimate Fighting Championship (UFC), o paulistano é um dos mais respeitados em sua modalidade e foi o responsável por trazer o principal evento de Mixed Martial Arts do mundo ao Brasil.

Integrante de uma família com fortíssima ligação com as artes marciais, Yamasaki conversou, em exclusividade, com o Jovem Pan Online e falou sobre doping no esporte e contou um pouco de sua trajetória nos octógonos.

Em relação aos recentes casos de uso de substâncias para melhoria de desempenho, o experiente árbitro lamenta que tais casos tenham se tornado comuns nos últimos tempos e explica que, no esporte, é difícil acabar completamente com esse mal. Mario frisa que esse problema é bem ruim para a imagem do Ultimate Fighting Championship.

“Afeta bastante (a imagem), pois estamos lutando para não ocorrer isso mais, mas é difícil, porque no mundo do atletismo, do esporte de alto rendimento, com a tecnologia, que te ajuda muito a se recuperar mais rápido, as pessoas acabam abusando disso. Eles (agências antidoping) tentam regular isso para não ficar igual a um halterofilista, gente que puxa peso. Eles são uns monstros. Acaba com a saúde deles. Existe sim o uso medicinal, mas as pessoas usam para seu benefício, para ficar com força maior e mais agilidade. Acho que não vale a pena”, falou.

No final do ano passado, o aposentado lutador Wanderlei Silva criticou duramente a organização do UFC, dizendo, entre outras coisas, que o evento não cuida de seus atletas, tratando os lutadores mal. Mario Yamasaki, adotando uma postura bem diferente do ex-lutador, rebateu as declarações.

“Eu acho que o UFC é um promotor de eventos. Não sei se cabe a eles cuidar dos atletas. Se você olhar para o futebol, quantos atletas que ficaram famosos, Garrincha, por exemplo, que ficaram ao léu. Futebol é uma coisa que tem muita grana, o UFC é um esporte novo. Por que o UFC que vai ter que cuidar dos atletas?”, pontuou. “Quando você pega alguém para gerenciar, você não pode só gerenciar suas lutas. Tem que gerenciar a carreira do atleta. O que ele vai fazer? Ele ganhou dinheiro e onde vai usar? Vai comprar uma Ferrari ou você vai comprar uma casa e investir o dinheiro para multiplicar o que você ganha. Vale muito mais você ensinar a pescar do que você somente ir e dar o peixe para o cara comer. O que o Wanderlei Silva está fazendo, é certo, porque precisa mudar, mas não é culpa do UFC. É culpa deles mesmos que não se programaram, que não fizeram um plano de vida. Ele ganhou muita grana, deve estar milionário, mas precisa ver se ele usou esse dinheiro para aplicar no lugar certo”, prosseguiu.

Recentemente, os brasileiros perderam a hegemonia no UFC e, no momento, José Aldo é o único lutador do nosso país a ser detentor de um cinturão, na categoria peso pena. Mario Yamasaki vê a situação com comum, mas não esconde sua opinião de que há uma falha nas categorias de base das artes marciais mistas no Brasil.

“Com certeza. Todo esporte, toda arte tem ‘ups and downs’. É como uma montanha russa, você sobe e desce. Acho que o brasileiro fica um pouco atrás do americano por conta das condições de treino, pelas condições de compra de equipamento. As facilidades que o americano tem para treinar são muito maiores. Outra coisa que o brasileiro faz é bater na mesma tecla. Ele não se renova, não muda o jeito de lutar, então isso pesa contra. O americano estuda muito, ele quer aprender, quer fazer coisas novas”, observou. “Tem vários lutadores americanos que, em uma luta, lutam de um jeito e depois faz tudo diferente. Essa troca de experiências é muito importante e o brasileiro se fecha a isso. Mas está mudando. Os brasileiros começaram a ir para os Estados Unidos, porque lá o treino é muito mais intenso e é muito mais responsável. O brasileiro ele gosta de falar: ‘ah, hoje tem uma festinha. Vamos comer só um pouquinho e não atrapalha’. Esse pouquinho pode custar muito para ele”, afirmou.

Ao falar sobre sua ‘entrada’ no mundo do MMA, o árbitro brasileiro revelou que, desde sua infância, tem conexão com as lutas.

“Eu vim de uma família de artes marciais, a gente tem uma linhagem no judô. Meu pai e meu tio foram para cinco Olimpíadas como árbitros internacionais. Eram os únicos árbitros que podiam ministrar cursos de arbitragem no Brasil. Eles me usavam como cobaia. Eu ia lá e ficava cometendo as faltas para treinar os juízes de judô. Ali eu aprendi as mecânicas de movimento e como ser correto, ser ético. Sem querer, eu entrei nessa área”, confessou. “Eu fui o responsável por trazer o UFC em 1998 para cá. Quando eu trouxe, conheci todo o operacional do UFC. Eu conheci o John McCarthy, que era o único árbitro na época. Eu perguntei por que ele era o único árbitro do UFC. Ele disse que estava procurando alguém para ajudá-lo. Eu levantei o meu dedinho e disse: ‘eu’. Me testaram e estou há 17 anos já”, relembra.

John McCarthy, aliás, é admirado por Mario Yamasaki e, em parceria com ele, o brasileiro vai ministrar uma clínica de MMA no navio Costa Favolosa, que passará por Búzios, Salvador, Ilhabela e Santos, entre os dias 15 e 21 de março.

“Ele é o meu mentor e sempre o tive como ídolo, porque o cara é muito correto. Ele tem uma memória de elefante e se lembra de lutas épicas que ele fez. Acho que a gente sempre tem que seguir e seguir alguém bom. O acho excelente, um dos melhores do mundo ainda. Continuo sempre falando com ele. Agora, em março, estou trazendo ele para o Brasil, porque vamos dar uma clínica de arbitragem, pela primeira vez em um cruzeiro. Vamos fazer este intercâmbio para melhorar a arbitragem no Brasil”, finalizou.