Atraso nos salários corrói poupança de anos de carreira de jogadores brasileiros

  • Por Estadão Conteúdo
  • 22/02/2015 13h16

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Valdomiro não recebe salários há sete meses. Não é um, nem dois. São sete meses sem créditos em sua conta bancária por causa da grave crise financeira que coloca em xeque o futuro da Portuguesa. A saída que o zagueiro encontrou para saldar as contas que não param de pingar foi usar as reservas que acumulou ao longo de quatro temporadas em Portugal, uma na Turquia e outra nos Emirados Árabes. Ou seja: sua poupança está indo para o brejo.

O drama do jogador foi revelado por ele próprio em tom de desabafo para as câmeras de tevê após a vitória contra a Ponte Preta. A diretoria da Portuguesa reconhece a dívida, mas afirma que a situação é isolada. “Existe um ou outro caso com atraso de salário há sete meses. Na maioria deles, o atraso é bem menor”, diz o vice-presidente de marketing da Lusa, Armando Costa Gonçalves. 

Valdomiro é o símbolo da luta da Portuguesa para se manter viva no meio da crise política e financeira que tomou conta do clube depois do rebaixamento para a Série B, no final de 2013 – hoje, o clube disputa a Série C. Apelidado de “Valdomito” pela torcida o zagueiro que “sem grande qualidade técnica, mas que gosta do confronto”, como ele mesmo se define, está sereno. “Não vivo além das expectativas. Não posso ganhar dez e querer gastar 20. Precisamos ter uma reserva para esses momentos”, diz. 

Lúcio Flávio, meia habilidoso que defendeu São Paulo e Santos, entre outros grandes, vive uma situação parecida no Paraná Clube. Ele precisou vender um apartamento no litoral paulista, também conquistado ao longo de anos de carreira, para se manter acima da crise que está soterrando o clube. Em 2014 chegou a ficar nove meses sem receber, mas conseguiu fazer um acordo. Afirma que o clube, agora, está dentro do prazo para saldar os débitos.

Lúcio Flávio e Valdomiro tiveram chance de fazer um pé-de-meia, mesmo que acabe desfiado pela crise. Para a grande maioria dos atletas, a crise bate mais pesado. Quem ganha pouco e fica sem salário pede adiantamentos para o clube para saldar as contas mais urgentes. Outros recorrem aos empréstimos com amigos e empresários. Por fim, pedem ajuda mesmo. Sensibilizados com o drama de quem ganha até dois salários mínimos, a Associação de Amigos da Gralha Azul lançou um projeto para ajudar os jogadores do Paraná Clube. Existe uma conta corrente para doações voluntárias. 

Em outros casos, não precisa nem de conta bancária. Em agosto de 2014, os jogadores do Paraná foram surpreendidos com um saco de dinheiro no vestiário: R$ 7 mil de uma vaquinha feita pelos 6.379 aficionados que foram ao jogo na Vila Capanema ver a vitória contra o Bragantino. 

A crise financeira que assombra a maioria dos clubes esvazia os bolsos dos jogadores. No final do ano passado, oito times tiveram algum tipo de atraso. Para Pedro Daniel, gerente da divisão Esporte Total da consultoria BDO, uma das razões do atraso é o planejamento de curto prazo. A maioria faz investimentos na montagem do elenco e contrata jogadores para conquistar o título. Pensam apenas no primeiro ano. Se o título não vem, o clube não se planeja para o segundo ano de contrato. Aí começam os problemas. 

O panorama melhorou em 2015, e a maioria dos clubes acertou as pendências. Cada um encontrou uma saída, que não significa que seja definitiva. 

Alguns jogadores não tiveram paciência. O Santos perdeu três titulares (Arouca, Mena, Aranha) que decidiram entrar na Justiça do Trabalho. Eduardo Carlezzo, advogado especialista em Direito Esportivo, afirma que a lei protege os atletas. “De acordo com a Lei Pelé, um atraso igual ou superior a três meses no pagamento de salários dá direito ao atleta de acionar o Judiciário para cobrar todas as pendências do clube.” 

Por que os jogadores se sujeitam a ficar tanto tempo sem receber mesmo com o amparo legal? Valdomiro dá duas explicações. “Eu tive um problema no joelho e fiquei nove meses fora. Estava fora do mercado. Precisava voltar para mostrar que estava bem”. 

A outra explicação fala de um lado tão importante como a remuneração. “A gente joga pelo amor à profissão, pela satisfação que os nossos pais sentem vendo o jogo pela televisão. Esse é um gosto maior do que qualquer coisa. O frio na barriga de enfrentar grandes jogadores é um oxigênio para esquecer que a gente não recebeu.”

PALMEIRAS ARRUMA A CASA E VIRA EXEMPLO – A maioria dos grandes clubes do País chega ao final do mês de fevereiro com os compromissos financeiros com seus atletas bem equacionados – embora ainda existam vários casos de débitos referentes aos direitos de imagens, parte integrante e importante do salário. Isso não significa, porém, que a situação esteja tranquila. Para pagar as contas, os clubes recorreram a expedientes surrados como venda de jogadores, antecipação de cotas de tevê e empréstimos bancários. Ou seja, honrar a folha continua sendo um grande desafio no Brasil.

Nesse contexto, o Palmeiras tornou-se um dos poucos “oásis” do futebol brasileiro. Apesar de ter penado dentro de campo até recentemente, o clube praticamente não atrasou o pagamento de salários, direitos de imagem e prêmios desde que Paulo Nobre assumiu para seu primeiro mandato na presidência. A consequência da fama de bom pagador é ser atualmente o clube preferido dos atletas no momento de fechar contrato.

Com as finanças equilibradas, em condição de oferecer bons salários, e honrar o compromisso assinado, o Palmeiras contratou até agora 19 jogadores para esta temporada. Trouxe, também, um técnico considerado do primeiro time: Oswaldo de Oliveira.

“Blindamos o elenco, o mês voltou a ter 30 dias e isso naturalmente atrai jogadores. Todo um trabalho feito e tudo o que a gente plantou, por mais duro que tenha sido, foi colhido agora”, diz Nobre, referindo-se ao saneamento feito no primeiro mandato. O presidente, porém, não vê motivos para soltar foguetes. “Pagar em dia tem de ser obrigação, e não virtude.”

O Flamengo, clube que durante décadas tinha presença cativa nas conversas quando o assunto era atraso no pagamento de salários, também parece ter entrado nos eixos. Ainda tem débitos salgados a quitar com vários jogadores que passaram pela Gávea, mas os compromissos com o elenco atual ao que consta estão em dia.

Tal quadro representa os resultados iniciais de um trabalho para melhorar a gestão do clube comandado pela administração do presidente Eduardo Bandeira de Melo. “Não vamos fazer loucuras, não vamos comprometer nosso orçamento”, garantiu o vice-presidente de futebol Alexandre Wrobel. Esse será o lema para 2015. 

Bicampeão brasileiro, o Cruzeiro também não escapou dos atrasos no pagamento de salários – o presidente Gilvan de Pinho Tavares admitiu ter tido problemas para quitar os compromissos de janeiro – um período em que, sem o time jogar, as receitas diminuem drasticamente.

A solução foi negociar jogadores, entre eles Ricardo Goulart, Lucas Silva e Everton Ribeiro. “Não tínhamos a intenção de vender esses atletas, mas todo mundo sabe como anda a situação financeira dos clubes. Temos de vender para obter receita”, lamentou.