Como a “obsessão” pelo jogo evitou que Fernando Diniz fosse um craque

  • Por Jovem Pan
  • 27/04/2016 18h57

Fernando Diniz foi um jogador medianoFernando Diniz foi um jogador mediano

Você pode não saber, mas o “técnico-sensação” do futebol brasileiro já foi jogador. Hoje com 42 anos, Fernando Diniz vestiu meiões e chuteiras por 15 anos antes de se tornar o principal responsável pelo encantador estilo de jogo do Grêmio Osasco Audax. Mas esqueça toda a qualidade de Diniz à frente dos bancos de reservas: com a bola nos pés, o mineiro não passou de um atleta comum. E, pasmem, por causa da obsessão que ele sempre teve por futebol. 

A tese parece complexa, mas não é. Em entrevista exclusiva a Mauro Beting para o Plantão de Domingo, da Rádio Jovem Pan, Fernando Diniz explicou por que, como jogador, não alcançou nem metade do reconhecimento que, mesmo jovem, já possui como técnico. Apesar de ter passado por gigantes do futebol brasileiro, como Palmeiras, Corinthians, Flamengo, Fluminense, Cruzeiro e Santos, ex-meia-atacante não se firmou em nenhum deles – tendo sido, na maioria dos casos, reserva. 

Para Diniz, o fato de ser um estudioso do futebol o prejudicou como atleta. “Eu tinha habilidade e a capacidade física de um atacante, mas não tinha a vocação, a emoção do atacante. Apesar de ter jogado a vida inteira na posição, eu não me permitia ser um atacante, porque estava o tempo todo pensando no jogo. E, quando você está pensando demais, a criatividade não acontece… Não há espaço para a espontaneidade“, explicou o técnico do Audax.

Ou seja: a obsessão de Fernando Diniz por racionalizar o futebol o impediu de, quem sabe, ter sido um craque. Ex-companheiro de Diniz como jogador, Edílson “Capetinha” já revelou que o ex-atacante não era diferenciado dentro de campo. Fora dele, no entanto, era um estudioso fervoroso, a ponto de ficar até “chato” de tanto que assistia a jogos de futebol e comentava sobre o assunto. 

Hoje com sete anos de experiência como treinador, o comandante do Audax acredita que, pelo seu estilo, deveria ter jogado na cabeça de área, e não como atacante – e olha que, em 15 anos como jogador, Diniz foi campeão paulista em 1996 e 1997, carioca em 2002 e mineiro em 2004. 

“Eu, atualmente, seria um volante”, arriscou o técnico do time de Osasco, antes de surpreender: e, se não fosse volante, acho que jogaria mais para trás do que para frente, porque, apesar de atacante, eu gostava muito de marcar, de ajudar os outros. A minha identidade psicológica não era de um jogador de frente, de criação. Eu tinha habilidade, mas não a cabeça de um meia-atacante“. 

A declaração de Fernando é curiosa, porque, como técnico, ele adota um estilo para lá de ofensivo. Há pelo menos quatro anos, o Audax gosta de ter a bola nos pés e dá um show de intensidade com ou sem a posse. O goleiro participa ativamente da iniciação das jogadas, e os meio-campistas se movimentam incessantemente para triangular até o setor ofensivo. Chutões? São raridades, apesar de, em 2016, o time de Osasco ter muitas vezes surpreendido os seus rivais com bolas longas. 

“O Audax está apenas selecionando melhor aquilo que deve ser feito. Este foi sempre um pedido nosso. E, com o amadurecimento dos atletas da filosofia do jogo, esta é uma evolução natural do trabalho que estamos fazendo nestes quatro anos à frente do Audax, avaliou Diniz, antes de, orgulhoso, definir o que representa decidir um título com um clube do tamanho do Santos. É, sem dúvidas, um sonho que está se realizando. E não foi em um passe de mágica. Foi passo a passo. A gente chega à final do Campeonato Paulista com muito mérito“, finalizou o técnico e ex-jogador.