Símbolo de manifestações políticas, camisa da CBF impede “despertar” do espírito de Copa

  • Por Diogo Patroni/Jovem Pan
  • 11/06/2018 08h05 - Atualizado em 11/06/2018 08h06
André Tambucci/ Fotos PúblicasCamisa amarela foi apropriada por movimentos de direita para exaltar nacionalismo

A três dias da abertura da Copa do Mundo, o brasileiro mostra que ainda está muito distante da Rússia, mas não só pelos mais de 14 mil km que separam os dois países. Tradicionalmente, Copa é sinônimo de festa de ruas enfeitadas e calçadas pintadas. Só que o “Gigante” ainda não acordou. A razão não se dá apenas pela síndrome do 7 a 1, e sim pelo cenário de incerteza política e insegurança econômica que pairam no País.

Em função das últimas manifestações políticas, o brasileiro parece ter criado certa repulsa a tradicional camisa canarinho que se traduz na apatia no período pré-Copa. “A ausência de camisas amarelas tem uma motivação mais profunda. Esse não é um fenômeno apenas dessa Copa do Mundo. Em 2014 também vimos essa apatia torcedora por conta das características políticas da época”, explicou o historiador  da USP e coordenador do LUDENS (Núcleo Interdisciplinar de Estudos Sobre Futebol e Modalidades Lúdicas), Flávio de Campos.

Campos relembra que as primeiras manifestações surgiram em junho de 2013 às vésperas da Copa das Confederações e estabeleceram a crítica irônica ao chamado “padrão Fifa”. “Isso revela uma vinculação das bandeiras sociais aos megaeventos esportivos no Brasil: Copa das Confederações, Copa do Mundo e Jogos Olímpicos. Muitos dos cantos ecoados nas avenidas contra os governantes eram similares aos das arquibancadas”, ressaltou.

Segundo o professor da USP, a partir dali houve uma confluência cultural que provocou um desgaste profundo, como a “desidratação” da popularidade da ex-presidente Dilma Rousseff. “Houve um paradoxo tremendo com a Dilma sendo vaiada na cerimônia de abertura da Copa do Mundo, enquanto os dois principais candidatos da oposição (Aécio Neves e Eduardo Campos) vestiam a camisa da Seleção Brasileira”, disse.

“Havia ali uma disputa política pela Seleção Brasileira e por um ‘símbolo flutuante’”, conforme explicou o docente. O historiador pontua ainda que entre os símbolos nacionais está a Seleção Brasileira, costumeiramente materializada pela camisa canarinho. “Acreditava-se que a Dilma e o PT se utilizariam da Copa do Mundo para promoção política, mas quem se aproveitou disso foi a oposição”, contextualizou.

Amarelo que constrange

O professor Flávio de Campos reitera que a camisa amarela da CBF se tornou frequente em manifestações promovidas pelos movimentos de direita, transformando-se em um símbolo anti-PT. “Essa captura continuou ao longo de 2015 com as manifestações em favor do impeachment. No último momento da destituição de Dilma Rousseff havia uma verdadeira divisão de torcidas entre um grupo vermelho e o outro verde-amarelo. Parecia algo como se fosse um Palmeiras x Corinthians. Além disso, no deslocamento da prisão de Lula haviam pessoas com a camisa da CBF”, disse.

O último episódio de “apropriação” dessa representatividade aconteceu recentemente durante a greve dos caminhoneiros. Diversos grupos país afora empunharam bandeiras e vestiram camisas amarelas pedindo Intervenção Militar.

“Esse símbolo flutuante causa constrangimento. Talvez, isso mude durante a Copa do Mundo, mas quando observamos alguém com a camisa amarela há uma polissemia. Afinal, não sei se ele está torcendo para a Seleção Brasileira ou pedindo Intervenção Militar?”, questionou Campos.

Rovena Rosa/Agência Brasil

Reapropriação 

O especialista rememora também os tempos da ditadura militar, quando a extrema-direita utilizava o slogan “nem foice, nem martelo, é verde e amarelo”, para resgatar os ideais de nacionalismo e anticomunismo. O uso da cor também marcou a queda do ex-presidente Collor, em agosto de 1992, no episódio que ficou conhecido como “Domingo Negro”. “O Collor conclamou os ‘brasileiros de bem’ a vestirem uma peça verde-amarela em manifestação de apoio contra as ‘calúnias’ feitas contra ele. Mas todos vestiram preto para mostrar que estavam contra ele”, afirmou.

Além do predomínio da cor preta, muitas brasileiros pintaram os rostos com verde-amarelo para mostrar o reapropriação do Brasil. O mesmo ocorreu com a Seleção Brasileira de 1982 e no movimento das Diretas, em 1984. “Aquela Seleção recuperou a camisa amarela como símbolo de unidade nacional. Em 1982 tivemos as primeiras eleições pluripartidárias no processo de redemocratização e tínhamos membros daquela Seleção que se posicionaram contra a ditadura. Já durante a campanha das Diretas o amarelo adquiriu um novo significado”, explicou.

Preferência pelo azul?

Talvez por esse sentimento “apartidário”, os brasileiros estão buscando mais a versão azul da camisa da Seleção Brasileira ao invés da “amarelinha”. Na comparação com a última Copa do Mundo, segundo dados da Netshoes, a procura pela camisa azul tem crescido 20% em relação a versão amarela.

Vale lembrar que às vésperas do Copa do Mundo de 2014, o ex-jogador Ronaldo afirmou que “não se faz Copa com hospitais”, porém o professor Flávio de Campos reitera que não se faz Copa sem um País e não existe um País sem democracia. “Necessitamos de um novo projeto de Brasil. Esse país vem num processo de destruição acelerado e os efeitos serão ainda mais sentidos nas próximas décadas”, finalizou.