Crise política e entressafra: por que Brasil deixou de dominar o futebol de areia?

  • Por Jovem Pan
  • 19/01/2017 17h24

Seleção Brasileira de Futebol de Areia não ganha a Copa do Mundo desde 2009

Seleção Brasileira de Futebol de Areia não ganha a Copa do Mundo desde 2009

Entre 1995 e 2009, foram 13 títulos de 15 possíveis. De 2011 a 2015, zero em três. O Brasil, definitivamente, perdeu força no futebol de areia. Inventor do esporte e hegemônico até a década passada, o País vive, atualmente, o seu maior jejum em Campeonatos Mundiais.

A busca pelo fim da seca começa npróxima quinta-feira, nas Bahamas. Até 7 de maio, dezesseis seleções dos cinco continentes vão disputar a nona edição da Copa do Mundo Fifa de Futebol de Areia.

O time verde-amarelo surge como um dos favoritos, é claro, mas em um grau muito inferior ao que o grande público se acostumou a ver no início do século. O histórico recente, por incrível que pareça, hoje joga contra a toda poderosa Seleção Brasileira no futebol de areia – e os números comprovam isto.

Já se vão oito anos desde o último título mundial do Brasil no beach soccer, em 2009, nos Emirados Árabes Unidos. Desde então, a Seleção mais vencedora de todos os tempos disputou três Copas, entre 2011 e 2015, e não venceu nenhuma. Na última edição, em Portugal, foi eliminada nas quartas de final e ficou de fora até do pódio  algo que só havia acontecido uma vez, em 2001.

Mas o que explica tamanha derrocada?

São dois os motivos principais. E eles foram revelados pelo lendário Jorginho. Oito vezes campeão mundial com a Seleção Brasileira, o hoje veterano atacante de 42 anos conversou com exclusividade com o repórter Fredy Junior, da Rádio Jovem Pan, e dissecou a decadência do futebol de areia nacional.

Ainda em atividade no Vasco, Jorginho colocou a maior parcela de culpa em uma crise política que assombrou a modalidade no Brasil nos últimos anosTrês vezes eleito o melhor jogador do mundo, o atacante ressaltou que, até dois anos atrás, o futebol de areia nacional era gerido por uma empresa que “arrecadava milhões, mas não repassava nada para o esporte”.

“O nosso esporte perdeu muito espaço na mídia, e as pessoas não sabem o porquê… Teve uma empresa que comandou o futebol de areia brasileiro por quase 18 anos e só visava ao lucro. O esporte arrecadava milhões, e ela não repassava quase nada para a modalidade, só uma migalha. Não promovia renovação, não organizava campeonato… Aí, deu no que deu“, argumentou.

A tal “empresa” à qual Jorginho se referatende pelo nome de Koch Tavares. Responsável por gerir beach soccer brasileiro praticamente desde o nascimento da modalidade, nos anos 1990, a agência comandou o esporte até junho de 2015, quando a CBF enfim reconheceu a Confederação de Beach Soccer do Brasil (CBSB) como parceira oficial para atividades relacionadas ao desenvolvimento do futebol de areia em território nacional. 

Jorginho sempre foi um grande crítico do modelo de gestão do beach soccer no País. Entre 2006 e 2011, até se afastou da Seleção devido a divergências com a antiga administradora da modalidadeO mau desempenho recente em Copas do Mundo, segundo o jogador, não passa de um reflexo da controversa e não menos contestada administração do esporte no Brasil.

Koch Tavares era acusada, entre outras coisas, de arrecadar ao menos R$ 10 milhões por ano com patrocinadores da CBF e não investir em competições, além de criar situações constrangedoras para os jogadores ao fazê-los aceitar convites para defender a Seleção no exterior com pagamentos considerados insuficientes  em torno de R$ 15 mil a serem divididos por todo o elenco.

“Em 2006, eu já avisava que essas coisas poderiam acabar com o nosso esporte. E foi o que aconteceu… O beach soccer do Brasil entrou em um abismo”, lamentou Jorginho.

“Enquanto isso, ooutros países do mundo foram evoluindo, se estruturando e, hoje, estão em condições de igualdade com o Brasil. São os casos de Itália, Espanha, Portugal, Rússia e do próprio Japão…”, acrescentou o atacante, já se aprofundando na segunda razão para a queda de desempenho do beach soccer verde-amarelo.

Enquanto o Brasil involuiu de 2009 para cá, outros países investiram na modalidade e passaram a competir de igual para igual com a então inalcançável Seleção treze vezes campeã mundial. Resultado? O time canarinho caiu para a Rússia nas Copas de 2011 e 2015, e foi derrotado pela Espanha no Mundial de 2013. Até mesmo o Taiti ficou à frente do Brasil na última Copa, chocando o planeta com um incrível vice-campeonato.

A Seleção Brasileira, que até há alguns anos contava com nomes do quilate de Benjamin, Neném, Junior NegãoBuru e Paulo Sérgio, já não tem mais grandes destaques individuais. Apenas o goleiro Mão, o defensor Daniel e o atacante Bruno Xavier são conhecidos nacionalmente  além, é claro, de Jorginho, que já está em fim de carreira.

Há, claramente, uma entressafra no futebol de areia brasileiro  algo que, de acordo com o último remanescente da geração multicampeã mundial, justifica-se pela falta de incentivo à modalidade nos últimos anos.

 

“Ninguém pode cobrar que a Seleção apresente supercraques, que surja um novo Benjamin, um novo Neném… Temos de enfrentar a realidade. Não houve campeonatos nos últimos anos e, por isso, não teve espaço para o nascimento de novos gênios. Hoje, contamos apenas com jogadores muito bons, que, juntos, formam uma boa Seleção”, explicou Jorginho.

A situação, segundo o jogador, só melhorou em 2015, quando a CBSB assumiu o comando da modalidade. “Hoje, o que está sendo feito por essa nova confederação é uma reestruturação. Ela deu prioridade à Seleção Brasileira. No ano passado, mais de 20 jogadores foram convocados, e houve a manutenção de uma base de pelo menos 15 atletas. Foi uma bela escolha”, elogiou.

“Agora, temos uma Seleção formada“, valorizou Jorginho, contente pelo fato de o Brasil ter encerrado a última temporada invicto, com 22 vitórias em 22 jogos. “A gente espera que, nessa Copa do Mundo, o Brasil volte a ser campeão e recupere a hegemonia do esporte, finalizou.

A Seleção Brasileira de futebol de areia estreia na Copa do Mundo do Caribe na próxima ??, às ??h??, diante da ??. Atual campeã das Eliminatórias Sul-Americanas, a equipe comandada por Gilberto Costa está no Grupo ?? da competição, que também conta com ?? e ??. Os dois primeiros de cada chave avançam para as quartas de final.