Do 1 a 7 aos 171, por Mauro Beting

  • Por Jovem Pan
  • 08/07/2015 12h29
Oscar recolhe bola após marcar o único gol do Brasil no segundo tempoOscar recolhe bola após marcar o único gol do Brasil no segundo tempo

Logo depois daquela bola de Ghigghia ter passado entre os braços dele e a quadrada trave esquerda do Maracanã, Barbosa olhou para cima suspirando fundo. Talvez sabendo que aquele instante se perpetuaria na história do futebol brasileiro. Aquela chaga seria eterna na carreira e na vida dele.

No céu, há um ano exato (ou muito errado), os companheiros do goleiro de 1950 viram o jogo pela Sky. Provavelmente.

Eles viram Muller fazer 1 a 0 no Mineirão. E não viram nenhum zagueiro brasileiro por perto, nem o David Luiz, que foi desatento como não costuma ser. Os zagueiros Augusto e Juvenal comentaram entre si que aquele erro do primeiro dos sete gols (e sete erros…) eles não cometeriam depois do escanteio. Até por, em 1950, a bola sair pela linha de fundo e já a jogavam na área. Não tinha lance ensaiado. Nem a chegada dos zagueiros. Muito menos alguém tão livre como ficou Muller em uma semifinal de Copa.

No segundo gol, Bauer e Danilo Alvim lamentaram a desatenção na entrada da área. Alguém brincou com Bigode que se ele havia sido muito cobrado pelos dois gols que saíram pelo lado esquerdo da defesa em 16 de julho de 1950. Imagina agora o que não detonariam Marcelo… E Fernandinho, na primeira das tantas falhas no campo amplo que ele e Luiz Gustavo deram aos visitantes.

O terceiro gol alemão parecia ter sido feito contra os 200 mil torcedores anestesiados depois do apito final no Maracanazo. Todos olhando a Alemanha tratar a bola como se fosse o Brasil sonhado, no Mineirão.

O quarto gol foi uma infelicidade de Fernandinho. Daquelas que ninguém cometeu na final de 1950. E que ele e tantos cometeram demais em 8 de julho de 2014. A data do Minerazen.

O quinto gol estava impedido. Quem se importa?

O sexto foi outra linha de passe. Ou seria o sétimo?

Perdemos as contas.

Jair Rosa Pinto e Zizinho lamentaram a falta de armação no jogo e em quase toda Copa. Reclamaram a ausência de craques como eles. Dois monstros que não ganharam o mundo. Mas conquistaram o planeta bola.

Ademir de Menezes, goleador de 1950, lamentou a péssima forma do artilheiro Fred. Não poucos lamentaram a ausência do lesionado Tesourinha no time de 1950.

Mas Friaça falou e calou todos:

– Mas quem fez o gol da última partida fui eu, lá da ponta direita, onde jogava o Tesourinha…

Chico lamentou que Hulk não conseguiu ser o jogador da Copa das Confederações. Não apenas ele. Todos jogaram muito mais em 2013 – quando não havia Alemanha. Nem Argentina. Nem Holanda.

Flávio Costa lamentou que tenha sido tão criticado pela perda do título de 1950. Mas entende que Felipão não pode ser tão crucificado como já está sendo.

– Pode sim! Montou o time errado! Meio-campo aberto e defesa remendada exposta. Tinha de saber que a Alemanha tinha mais time, experiência e entrosamento. Mexeu errado! O Parreira também não tinha que falar que éramos favoritos antes de começar a Copa. Onde já se viu???

Quase todos lembraram que o oba-oba em 1950 foi 2014 vezes pior que este ano.

Houve um silêncio.

Não tanto como no final daquela tarde de julho de 1950.

Mas houve um silêncio entre todos eles.

Respeitoso silêncio.

Barbosa apareceu na sala de TV da classe de 1950 lá no céu.

Ele pegou o controle remoto, e começou a zapear.

Todo o time de 1950 olhando para ele. Esperando algum comentário. Alguma lástima. Alguma cornetada. Algum suspiro olhando para o céu como aquele de 16 de julho. Ainda que naquele 8 de julho o suspiro seria olhar para os lados. Para os velhos companheiros de dor. De derrota. De vice-campeonato mundial.

Barbosa deu uma zapeada na TV. Vendo os comentaristas de sempre, cornetaristas de plantão, ex-atletas, ex-jornalistas, ex-treinadores, ex-árbitros, ex-colados, ex-croques, ex-colunistas, calunistas, todos detonando tudo. A torcida, a Fifa, a Dilma, o Aécio, a grama, o excesso de grana, a falta de gana, os cambistas, as cambalhotas, o Reich, o Fuhrer, a Alemanha, os godos, ostrogodos, visigodos, gordos e magros.

Barbosa ouviu muito, concordou pouco.

Alguns companheiros foram jogar caxeta. Alguns foram bater as asas de anjo em outros cantos.

Ele acabou sozinho.

Mais uma vez.

Suspirou fundo. Olhos para todos os lados.

Saiu da sala e foi até o gramado ao lado.

Viu a trave do campinho onde ainda hoje eles batem uma bolinha celestial lá no campo dos sonhos.

Foi até lá.

Quando encontrou os dez uruguaios de 1950 que já estão no céu. Todos batendo sua bolinha, em ainda mais respeitoso silêncio que o do Maracanazo.

(Ghigghia, justo o Ghiggia do segundo gol, ainda está vivo. Muito vivo. Só ele ainda está entre nós – não entre eles no campinho dos céus).

Os celestes nada falaram quando viram Barbosa de novo debaixo das traves.

Ele abriu os braços como se fosse fazer a defesa que todas as noites ele tenta fazer desde 16 de julho de 1950. Em vez de agarrar a bola que então e para sempre escapa, ele recebeu dez abraços respeitosos dos adversários. E, logo depois, mais dez abraços dos companheiros de vice-campeonato em 1950.

Ninguém falou nada. Apenas abraçou o goleiro que o Brasil culpou.

Acabada a sessão de abraços, Barbosa deixou a trave do campinho e voltou ao seu quarto para fazer a oração de todos os dias desde 16 de julho de 1950.

Quando pediu a Deus mais uma vez para que nenhum goleiro sofra o que ele passou.

Para que Júlio César e nenhum outro dos amarelos de 8 de julho de 2014 sofram o que a classe de 1950 sofreu eternamente.

Barbosa orou bastante.

Talvez, agora, seja escutado.

Mas, se não for, mais uma vez ele fez a parte dele.

Vergonha não é perder.

Vergonhoso é não saber perder.

Ainda mais quando não se está em campo e em jogo para ser derrotado.

Não é piada. É triste.

Não é pra rir.

E muito menos chorar como tanto se lamentou na alegria e na tristeza em 2014.

KKK é sigla das mais deploráveis da humanidade.

KKK muitas vezes é argumento paupérrimo em discussão de rede social. KKK é risada. Pode ser alegria. Ou alergia à inteligência.

A um.

Gol de Oscar no fim do único jogo histórico das Copas que não durou 90 minutos. Acabou aos 28min48s com o quinto gol alemão no Minerazen. Não importa o que aconteceu depois, quando muito tempo depois do que mandava o bom senso Felipão trancou a equipe um tanto mais, equilibrou um jogo que os alemães largaram já pensando na mais definida final antecipada desde 1930, e, ainda assim, venceram o segundo tempo por 2 a 1. A maior derrota em 100 anos de Seleção. E nos próximos 1000.

Sim, Ainda haverá Brasil. Seleção. Mais títulos mundiais. Ainda fabricamos do nada como mamonas craques. Mas não podemos ser tão bananas. Nem tão babacas metidos a bacanas. Todos nós. Precisamos aceitar a realidade. E entender que quando não somos os melhores, e não éramos em 2014, é preciso ter humildade para reconhecer. Para planejar. Treinar. E jogar. Faltava o capitão discutido Thiago Silva na semifinal. Faltava o indiscutível Neymar até a partida final. Mas faltou muito mais coisa no Mineirão e em má parte da Copa.

Não foi a tristeza irreparável do Maracanazo de 1950. O sentimento do Minerazen de 2014 é tão difícil de definir como foi indefinida a marcação na entrada da área brasileira. Foi o único jogo de Copa que vi com meu caçula. Entre o quarto e o quinto gol (ou seria entre o terceiro e o quarto?), falei para ele que trocava as lágrimas pela risada nervosa da perplexidade que ainda não tínhamos visto juntos uma partida do Brasil em Copa do Mundo. Aquilo não era o Brasil pentacampeão. Mas era a Alemanha tetra. Chocolate com cerveja que a transmissão oficial poupou da dor após o quarto gol. Nenhum torcedor mais foi mostrado depois da quarta tunda.

Faz parte. Por mais partido que tenhamos ficado todos. Não cabia no gerador de caracteres da Fifa a lista dos sete gols alemães. Foi tão impressionante que mal deu tempo para sofrer. O Brasil não perdeu por W.O. Foi deletado por um grande time com quase oito anos de trabalho em excelente atuação. O Brasil não borrou a história pentacampeã, nem foi ao W.C. por temer um time que foi avassalador.

Faltou muita coisa no Mineirão. Sobrou tudo para a Alemanha. Ainda tem tempo para consertar. Mas sem cobrar além da conta uma geração jovem semifinalista. E respeitando bastante um tetra como Parreira, um penta como Felipão.

Não é para caçar bruxas e bagres. É hora para refletir a respeito da Seleção e do futebol brasileiro. E chegar a conclusão que um ano passou. E quase nada mudou. E, se mudou, foi pra pior. Foi além do 1 a 7. Foi mais para 171.