Festa precoce, expulsão polêmica e invasão assustadora: as histórias de 1977

  • Por Jovem Pan
  • 27/04/2017 17h17

O CorinthiansO Corinthians

Corinthians e Ponte Preta começam a disputar neste domingo, às 16h (de Brasília), em Campinas, a final do Campeonato Paulista. Embora rara, esta não é uma situação inédita… Há 40 anos, as duas equipes também se enfrentaram na decisão do Estadual. Os três jogos finais de 1977 encerraram o maior jejum da história do Corinthians e são lembrados até hoje como principal capítulo da biografia alvinegra.

O Corinthians, que não era campeão desde 1954, venceu a primeira partida da final por 1 a 0; perdeu o segundo jogo, de virada, por 2 a 1; e fez 1 a 0 no terceiro duelo para se sagrar campeão estadual depois de mais de duas décadas.

O gol de Basílio findou uma seca de 23 anos e tem histórias bastante peculiares. 

Confira abaixo!

Final só no Morumbi 

Moisés Lucarelli? Pacaembu? Não, Morumbi. A final do Campeonato Paulista de 1977 foi realizada apenas no estádio do São Paulo. Polêmica, a decisão foi tomada pela Federação Paulista de Futebol (FPF) e revoltou os dirigentes da Ponte Preta. 

A FPF usou como justificativa uma recomendação do Secretário de Segurança da época, Antônio Erasmo Dias. Ele não queria que houvesse jogos importantes do Corinthians no Pacaembu – a fim de evitar problemas. Como o Moisés Lucarelli tinha capacidade menor que os estádios da capital, também foi vetado. Assim, as três partidas da decisão foram disputadas no Morumbi. 

“A tabela foi feita como se dois dos quatro grande de São Paulo já estivessem na final… Eram três jogos e todos disputados no Morumbi. Eles nunca imaginariam que um clube do interior fosse chegar tão longe, relembra o zagueiro ponte-pretano Oscar, em entrevista exclusiva a Daniel Lian, para a Rádio Jovem Pan. 

“Eu acho que se o Moisés Lucarelli tivesse sido usado em pelo menos um jogo, a história poderia ter sido outra. A Ponte tinha um belo time, estava muito confiante. Jogar três jogos no Morumbi, com mais de 140 mil pessoas e diante de uma pressão enorme era algo inédito para a Ponte. Se tivéssemos jogado em casa, as chances seriam maiores“, acrescenta.

Ponte favorita 

Por incrível que pareça, a Ponte Preta chegou à final de 1977 como favorita ao título paulista. O time de Campinas tinha jogadores como Carlos, Oscar, PolozziDicá e Rui Rei, e era considerado superior ao Corinthians. Durante a competição, por exemplo, Ponte e Corinthians haviam se enfrentado em três ocasiões. Em todas, deu Ponte – em uma delas, o time do interior venceu por 4 a 0. 

Ponte tinha um timaço... Maduro, e com a presença de três atletas formados na base: OscarPolozzi e Carlos. Então, entrou naquele Paulista para ser campeã“, relembra Juninho Fonseca, então reserva da Macaca, em entrevista exclusiva a Fausto Favara, para a Rádio Jovem Pan.  

Titular da lateral-esquerda corintiana, Wladimir também via a equipe de Campinas como rival mais dura para o Timão no Estadual. Naquela época, a Ponte vinha em um embalo muito grande… Tinha uma excelente equipe. A gente teve de se desdobrar muito para superá-la na final“, relembra.

Festa precoce 

O Corinthians venceu o primeiro jogo da final por 1 a 0, gol de Palhinha. Assim, precisava de apenas um empate na segunda partida para faturar o título estadual. O otimismo era grande… Tanto que mais de 146 mil pessoas compareceram ao Morumbi para assistir àquele que, ao que tudo indicava, seria o jogo derradeiro do Paulistão de 77 – o público é, até hoje, o maior da história do futebol paulista. 

Vaguinho abriu o placar para o Timão no primeiro tempo, e a festa tomou conta do estádioEla, no entanto, prejudicaria a equipe de Oswaldo Brandão nos minutos seguintes. O Corinthians voltou desatento para o segundo tempo e levou a virada, com gols de Dicá e Rui Rei. A reação da Ponte merece aplausos, é verdade, mas foi facilitada por uma inevitável desconcentração corintiana. 

Quando descemos ao vestiário no intervalo, estava uma loucura. Ele tinha sido invadido por diretores, amigos, aquela confusão toda… E não deu tempo de o Oswaldo Brandão colocar o pessoal em ordem, de conversar. O pessoal achava que o campeonato já havia sido decidido. Desceu diretor, conselheiro, um monte de gente. Não deu tempo de refrescarmos a cabeça, e o resultado no segundo tempo foi adverso“, descreve Vaguinho, em entrevista exclusiva a Mauro Beting.

Expulsão polêmica 

O terceiro jogo da decisão contou com um ingrediente um tanto quanto controverso. Ainda antes dos 20 minutos, o atacante Rui Rei, da Ponte, foi expulso pelo árbitro Dulcídio Wanderley Boschilia. Ele se enroscou com um defensor do Corinthians na entrada da área, caiu pedindo falta e, ignorado, levantou-se muito irritado, reclamando da não-marcação da arbitragem. Boschilia, então, mostrou-lhe um cartão amarelo e, logo em seguida, o vermelho – deixando a Macaca com um jogador a menos. 

A expulsão foi considerada rigorosa demais. Não vamos sobrecarregar o Dulcídio, mas, se você olhar o histórico, raríssimas vezes houve uma expulsão aos 18 minutos do primeiro tempo de uma final“, lamenta Juninho Fonseca. “As pessoas falam que o Dulcídio tinha sido xingado, ofendido… Não foi! Porque o barulho da torcida era tão alto que não dava nem para ouvir o que um companheiro falava do seu lado“, acrescenta Oscar. 

A expulsão levantou ainda mais suspeitas porque, meses depois, Rui Rei seria anunciado como novo reforço do Corinthians. Teria ele entrado em campo vendido na final de 1977? Segundo Oscar e Juninho Fonseca, isto nunca passou pela cabeça dos jogadores da Ponte Preta. 

Entre os jogadores, não houve nada disso. Nós conhecíamos o Rui, sabíamos que nada daquilo havia acontecido“, afirma o zagueiro. A possibilidade de mutreta não existe. Ficamos concentrados desde o segundo jogo, totalmente isolados. Não tinha nem telefone celular. Perdemos porque perdemos. Dentro de campo“, acrescenta Juninho.

O gol mais sofrido da história do Corinthians 

Apesar de jogar com um a mais, o Corinthians teve muitas dificuldades para vencer a Ponte Preta no terceiro jogo da decisão. O único gol da vitória por 1 a 0 foi marcado apenas aos 36 minutos do segundo tempo, após incrível bate-rebate dentro da área. Zé Maria cobrou falta pela direita, Basílio resvalou de cabeça, e Vaguinho acertou o travessão. A bola sobrou, Wladimir cabeceou em cima da zaga, e coube a Basílio estufar as redes do goleiro Carlos. 

O gol, mais sofrido da história alvinegra, é relembrado até hoje com muito carinho por todos os corintianos. “Eu tinha uma impulsão muito forte. Saltava muito. O Zé Maria sabia disso, e eu dei um toque para ele. Falei para cruzar no segundo pau, bem alto. Eu saí da área, puxei a marcação, e o primeiro pau ficou livre. O Zé bateu no primeiro pau, acho que errado, o Basílio deu a casquinha, e eu chutei pro gol. Só que peguei mal na bola, ela foi muito alta. Aí deu rebote e saiu o gol. Foi uma festa incrível”, recorda-se Vaguinho.

Invasão assustadora 

Assim que o apito de Dulcídio Boschilia pôs fim à seca de 23 anos do Corinthians, instalou-se no Morumbi uma das maiores festas da história do futebol brasileiro. Exaltados, os torcedores alvinegros invadiram o gramado e celebraram o título paulista por eles e pelos jogadores. Tamanha alegria assustou até quem estava dentro de campo. 

“Eu corri… Fui direto para o vestiário, porque senti a invasão. Tenho muito medo dessa coisa de invasão, conflito, muita alegria. Podia acontecer alguma coisa. A primeira coisa que eu fiz foi sair para o vestiário em disparada. Não teve nem comemoração, volta olímpica… O campo estava tomado de gente, relembra Vaguinho. 

A exaltação alvinegra se justifica. Para alguns torcedores corintianos, o título paulista de 1977 foi o mais importante da história do clube. Mais até que a Libertadores e o Mundial de Clubes de 2012.