15 anos do penta: o resumo das 7 partidas que levaram ao título

  • Por Thiago Uberreich/Jovem Pan
  • 30/06/2017 12h44 - Atualizado em 30/06/2017 15h06
Capitão da Seleção, Cafu fez a festa ao erguer a taça do penta após vitória contra a Alemanha

Brasil 2 x 1 Turquia – 3 de junho

A Seleção Brasileira entrou em campo em Ulsan na Coreia do Sul para enfrentar a boa Seleção da Turquia.

Como toda estreia, a partida foi nervosa e a Turquia era uma grande adversária. Um time bem montado por Senol Gunes. A Seleção de Luiz Felipe Scolari saiu em desvantagem. Gol de Sas, aos 47 do primeiro tempo. Na etapa final, o Brasil melhorou e Ronaldo empatou, aos 5 minutos. Aos 41 minutos, um lace polêmico. Luizão, que tinha entrado no lugar de Ronaldo, foi derrubado quase ainda fora da área. O árbitro coreano Young Joo Kim marcou pênalti e expulsou o camisa 5, Alpay. Rivaldo bateu bem e virou o jogo. Um destaque negativo da partida foi a simulação de uma contusão por parte de Rivaldo. O meia estava na linha de fundo, aguardando a bola para cobrar um escanteio. Um jogador adversário chutou a bola nele. Claramente, o jogador brasileiro foi atingido na coxa direita, mas ele simulou uma contusão: caiu o chão e levou as mãos ao rosto. O meia foi multado pela Fifa, na época, em 16 mil reais. No entanto, ele não foi impedido de jogar a partida seguinte diante da China. A manchete do Estadão do dia seguinte destacava: “Ronaldo acerta o pé, juiz dá uma mão e Brasil vence”. A reportagem dizia: “‘Um brasileiro não faria melhor’, protestou o técnico Senol Gunes, ao referir-se à arbitragem. ‘Levei na malandragem’, admitiu Luizão, que teve participação discreta, embora definitiva, no pouco tempo que jogou. Os jornais ressaltavam a superação de Ronaldo e a boa atuação de Rivaldo. Os dois seriam os grandes nomes da Copa. Ronaldo conversou por telefone com o pai, Nélio. “Pai, vá com calma, por favor, falta muita coisa; você ainda vai ter muito o que comemorar“. O pai estava eufórico. O camisa 9 do Brasil também conversou com a mãe por uma ligação internacional. Vale lembrar que ainda não havia Whatsapp ou ligação por imagens pela internet. Já o técnico Felipão ficou preocupado com as dificuldades de marcação. Denílson entrou bem no jogo, mas o treinador não mexeria na equipe.

Brasil 4 x 0 China – 8 de junho

Já a Seleção Brasileira, depois da vitória apertada contra a Turquia, não teve dificuldades para passar pela fraca equipe da China em Seogwipo, na Coreia.

O técnico Luiz Felipe Scolari colocou Anderson Polga no lugar de Edmílson e justificava: “Ânderson Polga, que é um jogador mais talhado para jogar na sobra e com mais qualidade no sentido de cobertura, pode nos dar uma ajuda.” Ou seja, deu justificativas táticas para a substituição. A Seleção brasileira marcou três gols no primeiro tempo: Roberto Carlos, aos 15, Rivaldo, aos 32, e Ronaldinho Gaúcho, aos 45. Ronaldo fez o quarto da Seleção, aos 10 do segundo tempo. Com duas vitórias seguidas, o time brasileiro estava classificado para a próxima fase.

Brasil 5 x 2 Costa Rica – 13 de junho

Fechando a primeira fase, o Brasil enfrentou a Costa Rica na cidade de Suwon. Desde a final de 1958, a Seleção brasileira não marcava cinco gols em um jogo de Copa.

Com a classificação garantida, o técnico Felipão fez alterações no time para poupar jogadores. Durante o jogo, o treinador colocou Kleberson que ao longo da segunda fase do mundial ganharia a posição de titular. A Seleção goleou a Costa Rica. No primeiro tempo, Ronaldo fez aos 10 e aos 13 minutos. Edmílson marcou o terceiro, aos 38. Wanchope diminuiu, aos 39. Na etapa final, Gomes diminuiu para a Costa Rica, aos 11. A Seleção marcou o quarto gol com Rivaldo, aos 17. Júnior, que substituía Roberto Carlos na esquerda, marcou o quinto: 5 a 2. O Brasil terminava a primeira fase com cem por cento de aproveitamento e com 11 gols marcados. Reportagem da Folha analisava que o técnico da Seleção surpreendia: “Desde que chegou à Ásia, o treinador do Brasil tem feito tudo diferente daquilo que o senso comum esperava dele. Antes da Copa, o que para os críticos de Scolari era teimosia para os admiradores chamava-se coerência. Foi assim com o esquema 3-5-2, corpo estranho à tradição brasileira, e com o atacante Romário, artilheiro das principais competições internacionais no último ano. O jogador ficou fora da Copa, e o sistema de jogo ainda vigora. Mas, antes mesmo da estreia no Mundial, contra a Turquia, o técnico surpreendeu todos ao escalar Juninho no meio-campo do time titular. Com isso, o ‘defensivista’ Scolari abriu mão de jogar com um segundo volante de marcação, algo que se tornou tradição desde 1986, quando Elzo e Alemão jogaram a Copa, no México”.

A Turquia garantiu o segundo lugar do grupo com uma vitória sobre a China por 3 a 0 em jogo disputado em Seul. Sas marcou o primeiro, aos 6 minutos, e Korkmaz, aos 9, da etapa inicial. O terceiro gol foi de Davala, aos 40 da etapa final.

Na definição do grupo G, o México ficou em primeiro lugar ao empatar contra a Itália por 1 a 1, em Oita. Borgetti abriu o placar com gol aos 34 da etapa inicial. A Itália só conseguiu empatar no segundo tempo. Del Piero marcou, aos 40 minutos. Os italianos, para manter a tradição, fizeram uma campanha irregular na primeira fase: uma vitória, um empate e uma derrota. Em Yokohama, o Equador derrotou a Croácia por 1 a 0, gol de Mendez, aos 3 minutos do segundo tempo. As duas seleções estavam fora da Copa.

Brasil 2 x 0 Bélgica – 17 de junho

A Seleção brasileira voltou a campo para o primeiro mata mata na Copa. O time de Luiz Felipe Scolari deixava a Coreia e agora jogaria em Kobe, no Japão, contra a Bélgica.

A Seleção enfrentou dificuldades contra a Bélgica. O goleiro Marcos fez defesas importantes que garantiram o resultado por 2 a 0. A anulação de um gol belga pelo árbitro jamaicano Peter Prendergast gerou discussão de que a arbitragem estaria ajudando o Brasil na Copa. Depois de um primeiro tempo sem gols, a Seleção cresceu de produção na etapa final. Aos 22 minutos, Rivaldo matou a bola no peito na meia-lua da Bélgica e chutou forte: 1 a 0. Em um contra ataque, Kleberson, que viraria titular do time,  arrancou pela direita e cruzou para Ronaldo marcar, aos 42 minutos. Manchete da Folha: “Dupla de erres leva Brasil para as quartas”. Tostão escrevia: “Apesar de algumas deficiências, a Seleção Brasileira mostrou que tem condições de ganhar o título. Não será fácil contra a Inglaterra. Mas nenhuma Seleção do mundo tem três atacantes tão bons quanto o Brasil. Se Rivaldo e os dois Ronaldos estivessem do outro lado, provavelmente o placar teria sido de 2 a 0 para a Bélgica. Felizmente, eles atuam no Brasil.” Apesar dos elogios de Tostão, a Seleção era muito criticada por causa do vazio entre a zaga e o ataque da Seleção. No entanto, a deficiência, aos poucos, seria contornada.

Brasil 2 x 1 Inglaterra – 21 de junho

Para ser campeã do mundo, qualquer Seleção precisa enfrentar equipes à altura. Foi o caso do duelo do Brasil com a Inglaterra, em Shizuoka. Kleberson virou titular pelas mãos de Felipão. Ele dava mais rapidez ao meio campo do time brasileiro. Aos 23 minutos do primeiro tempo, o zagueiro Lúcio cometeu uma falha grotesca. Michael Owen aproveitou e marcou o gol da Inglaterra. A Seleção Brasileira, jogando de azul, foi melhorando. Ronaldinho arrancou em um contra ataque e tocou para Rivaldo que chutou cruzado, no canto direito do Goleiro Seaman. O relógio marcava 47 minutos da etapa inicial. O gol deu tranquilidade para o segundo tempo. Aos 5 minutos, Ronaldinho cobrou uma falta à direita da intermediária inglesa. O jogador queria levantar a bola para dentro da área, mas, de forma surpreendente, encobriu o goleiro Seaman. Foi uma explosão de alegria. O Brasil virava o jogo. No entanto, 7 minutos depois, Ronaldinho foi expulso por entrada violenta. O atleta, na época com 22 anos, apesar de craque, mostrava que não tinha estabilidade emocional. Seria um desfalque importante para as semifinais. O Brasil estava mais uma vez entre as quatro melhores seleções do mundo. O Estadão do dia seguinte trazia na página principal: “A dois passos: 2×1, foi uma vitória de talento e garra”. O jornal destacava que a Inglaterra não soube aproveitar a vantagem numérica em campo: “Mesmo com um a mais, os ingleses não conseguiram vencer a defesa brasileira e Roberto Carlos neutralizou o principal atacante inglês, Beckham. A vitória aumentou a confiança brasileira: pesquisa no portal Estadao.com.br revela que 93,7% dos internautas acreditam na conquista do penta – eram 79%, há um mês. Nas apostas em Londres, o Brasil passou a favorito”. Ronaldinho era criticado pelos comentaristas, apesar do gol magistral. Ele faria falta na fase seguinte.

No outro jogo do dia, a Alemanha passou pelos Estados Unidos, em Ulsan. Ballack fez o gol da vitória, aos 39 minutos do primeiro tempo: 1 a 0. Os alemães faziam a melhor campanha desde o título de 1990. Em 94 e 98, a equipe européia foi eliminada nas quartas de final (Bulgária e Croácia).

Brasil 1 x 0 Turquia – 26 de junho

As duas seleções já tinham se enfrentado na primeira fase. Ronaldo não estava bem. Mas ele se superou de novo e comprovou que era decisivo.

O gol salvador foi de bico. Aos 4 minutos do segundo tempo, Ronaldo invadiu a área e chutou no canto esquerdo do goleiro Rustu. Depois, o camisa 9 do Brasil foi substituído por Luizão. A Seleção brasileira chegava pela terceira vez consecutiva à final da Copa. Uma foto na capa do Estadão mostrava os pés dos principais jogadores brasileiros: “Com chuteiras cromadas novas, Ronaldo marca o gol da vitória, sai aplaudido e é eleito pela Fifa o melhor em campo.” A reportagem dizia que Ronaldo enfrentou uma marcação implacável: “O atacante da Inter esteve muito marcado na fase inicial, mas mostrou genialidade ao receber passe de Gilberto Silva, enganar dois zagueiros e chutar de bico, ‘à la Romário’, como ele mesmo definiu, sem chance para Rustu. O gol despertou o Brasil, que passou a explorar contra-ataques. Ronaldo participou de outros dois lances importantes, ao dar passes precisos para Edílson e Kleberson, que não souberam aproveitar”. Ao contrário do jogo da primeira fase, o técnico Senol Gunes, não reclamou da arbitragem e reconheceu a superioridade brasileira.

Brasil 2 x 0 Alemanha – 30 de junho

Para muitos, era a final do século passado. O Brasil, tetracampeão, e a Alemanha, tricampeã, se enfrentariam pela primeira vez na história das Copas. Em 74, a Seleção enfrentou a Alemanha Oriental, não era a Alemanha campeã do mundo. O jogo foi em Yokohama, Japão.

O primeiro tempo da final da Copa foi marcado por equilíbrio. Ballack, suspenso, era o desfalque na Alemanha. A defesa europeia era sólida e o goleiro alemão já tinha sido escolhido como melhor na posição dele no mundial. O jogador provocou tanto que falhou no primeiro gol da Seleção brasileira, aos 22 minutos do segundo tempo. Ronaldo brigou pela bola na intermediária alemã e tocou para Rivaldo, escolhido melhor jogador da Copa. Ele chutou de longe. O goleiro alemão bateu roupa e soltou a bola nos pés de Ronaldo. Com o cabelo “cascão”, aquele gol significava o resultado de um esforço de 3 anos de muito trabalho e superação. Aos 34 minutos, Kleberson arrancou pela direita e tocou rasteiro para área. Rivaldo deixou a bola passar. Ronaldo dominou e chutou no canto esquerdo do goleiro alemão: 2 a 0. Já o goleiro brasileiro Marcos garantiu o resultado lá atras com defesas importantes. Ronaldo chegava ao oitavo gol na Copa e se tornava artilheiro. Era a maior artilharia desde 1970, quando Gerd Muller marcou 10 gols. Depois do mundial do México, o jogador que mais gols marcou em um torneio foi Lato, em 74, com 7 gols. Depois, todos os artilheiros marcaram 6 gols. Ronaldo também igualava a marca de Pelé com 12 gols em Copas.

O italiano Pierluigi Collina apitou o fim do jogo e começou a festa brasileira. A Seleção conquistava a quinta estrela. O grande campeão do Século 20 conquistava a primeira Copa do Século 21 e abria grande vantagem sobre Alemanha e Itália, com 3 títulos cada. Cafu, capitão brasileiro, que jogou três finais consecutivas de Copa quebrou o protocolo e subiu no pedestal de acrílico onde estava a taça para que o mundo todo visse ele erguendo o troféu! Pelé também faz parte das imagens da cerimônia de premiação e abraçava efusivamente cada jogador do Brasil. A Folha de S.Paulo trazia, no dia seguinte uma análise sobre o esquema tático da Seleção que, pela primeira vez, ganhou um mundial com três zagueiros: “Pela primeira vez, o Brasil é campeão mundial com esquema que foge das características táticas históricas do país. Com a vitória de ontem sobre a Alemanha, Luiz Felipe Scolari colocou o 3-5-2 na galeria dos times nacionais que tiveram o gosto de conquistar uma Copa do Mundo. Nos quatro títulos anteriores, a Seleção brasileira atuou com o esquema de dois laterais e dois beques, que formavam a tradicional linha de quatro defensores”.

No retorno ao Brasil, os jogadores e a comissão técnica foram recebidos pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso, em Brasília. A imagem marcante daquele encontro foi a cambalhota de Vampeta na rampa do Palácio do Planalto.